14 de dezembro de 2011

Da quietude.

Hoje fiz as contas. Este ano fui 23 vezes a Paris, a maior parte delas em trabalho. Quando me queixo sou insultada pelos meus amigos, mas a verdade é que à maior parte chamo "viagens de ar condicionado": aeroporto-taxi-hotel-escritório-hotel-taxi-aeroporto. Mas às vezes (muito às vezes) acontece conseguir fugir, acontece conseguir respirar ar que não passou por filtros ou centrais de AVAC. E esse foi o caso hoje. Fugi uma hora para o Musée Rodin, o meu lugar preferido na cidade. Deixei-me passear por entre os corpos de bronze, por baixo das árvores de folha caduca que teimam em não caducar. Fiquei quieta no sossego dos corpos vivos das estátuas, a olhar a tragédia, o amor, a alegria, o medo, o prazer, o sufoco, a altivez, a humildade, o despeito, a ternura. Está tudo lá. Cravado no bronze. Escrito na curva de um braço, gravado num olhar penetrante. Diria que vive gente nas estátuas de Rodin. E na total imobilidade, mais quieta que qualquer uma das muitas obras espalhadas pelo jardim, dei de caras com a minha própria humanidade.

8 de dezembro de 2011

Mais um ano por estrear.

Está aí à porta mais um ano por estrear. Apesar de estar vagamente curada do optimismo doentio, não consigo evitar contar os dias e renovar sempre a esperança de que este é que vai ser.

Parágrafos e Geografia

"Foi uma maneira óptima de ensinar os alunos sobre parágrafos e geografia", disse uma das professoras do miúdo da Carolina do Norte que escreveu a mensagem na garrafa que chegou aos Açores esta semana. Bem vistas as coisas há pouco mais que as pessoas precisam de aprender: parágrafos e geografia.

1 de dezembro de 2011

How old is humankind? - parte 2

"(...) Other higher-level thought processes of humans, such as self-awareness, rationality, and sapience, are considered to be defining features of what constitutes a "person". (...)"

Os antropólogos matam-me.
Se calhar está na altura de saírem de casa e, quem sabe, experimentar o mundo cá fora.

How old is humankind?

Acordei com esta pergunta na cabeça. Tenho no manancial infindável de pocket facts que somos o resultado de 4 milhões de anos de sucesso evolucionário. O que me faz pensar em duas questões essenciais:

1. Porque raio é que não agimos como tal? Já estava na hora de "act your age".

2. O que é o "tempo" à luz disto? Tenho uma grande lata quando me queixo para dentro por não ter tempo para viver a minha vida.

26 de novembro de 2011

Semanário.

O Pedro disse-me para escrever um diário, assim uma espécie de agenda de dentro a marcar os dias que passam e as coisas que ficam. A aluna dedicada sempre de mão no ar pôs-se à bulha com a procrastinação, a criatura estruturada gastou o tempo todo a perceber por onde começar. E depois percebi que há alguma coisa em mim que se fecha, que se dobra bem dobradinha lá no fundo, sem fazer lixo. E que essa arrumação tem uma agenda, um calendário. Chega o domingo à noite e ligo o modo de sobrevivência, um escudo dos dias para aguentar a semana sem interrupções, sem perder velocidade, sem me distrair. É quase como fazer uma mala para ir de viagem para um destino que conheço bem: sei exactamente o que levar, em que quantidade, o que fazer no destino se houver algum imprevisto. Tenho tudo planeado, sem margem para erro, com planos B, C e D para tudo o que possa acontecer. Controlo a semana como se controla uma lista de compras, riscando uma a uma as linhas de afazeres, passando de dia para dia com a sensação de dever cumprido, como num jogo de computador, a passar de nível de forma consistente e ritmada, segunda-terça-quarta-quinta-sexta. Talvez por isso, quando há um feriado a meio da semana me desoriento, não sei o que fazer, arrumo e desarrumo, perco o embalo. Escrever um diário de dentro durante a semana é contra-natura, a semana é de fora. A semana passa-se de escudo em riste a fazer ricochete das balas. Porque ainda não sei desviar-me delas. A semana passa-se em modo de sobrevivência.
E chega a sexta-feira à noite. Não é acidente combinar com a Pedro as sexta à noite, depois de fechar a semana - de outra forma não o saberia fazer, não estaria equipada. Sexta à noite cai o pano. Respiro fundo e sei que tenho dois dias pela frente onde posso estar triste, onde se eu quiser ninguém me vê fraca, sem energia e sem rumo. Tenho dois dias inteiros onde posso fugir, onde posso não-fazer, onde posso estar ausente. Tenho dois dias para recuperar e refazer o escudo para a segunda-feira que aí vem. Por isso não escrevi o diário. Escrevo hoje, sábado, um semanário das coisas que se acumularam na agenda de dentro, enquanto tratava meticulosamente da agenda de fora e guardava num saco as coisas de dentro. Não sei precisar os dias deste semanário-diário, é tudo uma massa de coisas, volumosa. Uma massa de coisas que me tira o ar, que não me deixa funcionar. Por isso guardo cuidadosamente num saco para ir tirando devagar nos dias de dentro. Hoje.

17 de setembro de 2011

Quero muito.

Ser aquele puto que ainda acredita em magia.

8 de agosto de 2011

Um ano por estrear.

Bem vistas as coisas, o ano novo por estrear pode começar hoje.

Bem vistas as coisas não está nada mal para fim de ciclo.



3 de agosto de 2011

Cultura de sobrevivência.

O país está em crise. Sobretudo a moral. Faz-se tudo o que se pode para se chegar onde se quer, mesmo que pelo caminho se tenha de atropelar uns quantos. As empresas, os jornais e a política dão palmadinhas nas costas da mediocridade e dos "espertos". Afinal, o mundo é deles. E o que me pergunto é: chegámos a um tal modo de sobrevivência em que achamos tudo normal?

25 de julho de 2011

Não é mau sinal quando...

... escreveram-me uma coisa muito boa + disseram-me uma coisa muito má = uma sensação boa.
Será que estou a recuperar algum do optimismo?

24 de julho de 2011

Já.

14 de julho de 2011

o mundo é tão mais divertido...

...depois de cinco flutes de champagne.

5 de julho de 2011

Falo contigo.

Falo contigo sem falar porque há um ponto em que só consigo escrever. É uma coisa minha, cá de dentro. Sempre fui assim: quando consigo falar é porque as coisas nem estão muito más, quando pioram só consigo que as coisas saiam escritas, letra a letra, quase a ferros. É terapêutica, esta coisa de escrever. É um saco onde se guardam as letras e se deixam escorrer pelas paredes feitas do tecido invisível dos dias.  Falo contigo. Mas não te posso dizer a falar que não durmo duas horas seguidas sem acordar de sobressalto. Não faz sentido que te diga isso quando não to sei dizer a falar. Não te posso dizer a falar que me angustia esta coisa de estar intrinsecamente sozinha e que por mais que esteja acompanhada me sinto só. Não to sei dizer a falar. Não te posso dizer a falar que é a primeira vez na vida que duvido da minha tenacidade e do meu valor. Não to sei dizer a falar. Não te posso dizer a falar que me falha o pé em coisas que sempre soube serem verdade. Não to sei dizer a falar. Não te posso dizer a falar que me cansa a ruína dos dias. Não to sei dizer a falar. Não te posso dizer a falar que me dói a dor dos velhos, cá no fundo do coração, como quem desistiu de esperar por amanhã. Não to sei dizer a falar. Não te posso dizer a falar que apesar de fazer por me divertir no caminho me pesam as pernas ao andar. Não to sei dizer a falar. Não te posso dizer a falar que estou a aprender a viver meia vida com meio coração. 
Por isso é que te escrevo, quase rezo. Porque não to sei dizer a falar.

4 de julho de 2011

Entre mortos e feridos alguém há-de escapar.

Há os meninos que choram.

Há os meninos que choram e não são os meninos da lágrima. Os meninos que choram são meninos de todos os dias, meninos de verdade como diria o pinóquio que afinal esmagou o grilo, mas na história de encantar todos diziam que eram amigos. Com sorrisos e assobios, com alegria e com vontade, os meninos que choram são os meninos que não choram sempre. Mas de vez em quando dá-lhes para isso. Às vezes porque entalam os dedos, outras porque lhes pisam os calos, outras só porque sim.

22 de junho de 2011

Ora acelero, ora abrando, mas sempre a correr.

Sonho acordada com viagens de barco. Abro uma loja de 180m2. Vejo a avó e dou-lhe beijinhos. Desdobro-me e torço-me para estar com os amigos. Processo em média 120 e-mails por dia. Vejo os pais que ainda agora chegaram. Almoço com um editor e aprovamos uma sessão fotográfica. Não dobro o pijama nem faço a cama. Escrevo seis propostas para projectos daqui até ao fim do ano. Tento mudar o (meu) mundo todos os dias um bocadinho, preciso que ele seja melhor. Penso nele. Penso no outro. Ponho fotos estúpidas no facebook. Faço uma video conferência em inglês. Depois outra em francês. Rio-me. Em português é ao telefone. Carrego-o duas vezes por dia porque a bateria não dura. Tomo os comprimidos das insónias mas como chocolate. Dou os parabéns ao meu irmão porque a expedição foi um sucesso. Encomendo 36 lâmpadas. Envio sms a brincar. Outros a sério. Lavo roupa. Faço check-in de três jornalistas, vamos voar juntas e penso que somos todas mulheres. "You are perfect, a life saver." diz um mail às 7 da manhã. Fico feliz e com pena secreta que seja profissional. Aprovo um plano de meios. Passo brief para outro. Vou comprar uma garrafa de porto de 20 anos mas não a posso beber que é presente de agradecimento. Vou à Casa de Lafões e doem-me tanto as costas que me custa dançar. Não digo nada e rio-me, com uma mini na mão como deve ser. Encontro 4 barcos, dois na Grécia, um na Turquia e um em Espanha. Envio sms de entusiasmo. Discuto orçamentos. Reciclo. Digo asneiras. Aprovo três projectos de novas lojas. Rego as plantas. Venho escrever coisas estúpidas para o blog.
E penso que isto tudo não é nada mau para uma semana de três dias.

19 de junho de 2011

Engoli uma aranha.

Foi acidental. Mas antes isso que um sapo.

10 de junho de 2011

Um dos melhores conselhos que já recebi.

Be all you can be. Fuck the rest.

7 de junho de 2011

Sonho estranho (ou o quão queimada estou)

Esta noite sonhei que estava apaixonada por um dinamarquês de barba. Chamava-se Tom e vivia no 3º andar de um prédio com varandas e escadas de incêndio verde-escuro. O Tom fazia bonecos maravilhosos. Conversámos imenso tempo sentados a uma mesa de madeira, daquelas que têm um tampo denso, cheio de riscos e sulcos do tempo. O Tom fazia umas torradas maravilhosas. Não sei que idade tinha, acho que não tinha idade, com rugas nos olhos e sorriso aberto. Tinha na sala um sofá enorme com muitas almofadas e um tapete gigante no chão, onde estava uma caixa de fruta envernizada com coisas para fazer bonecos, agulha e lã. Sentei-me no chão e fiz um boneco para dar ao Tom. Desci a escada do prédio para ir à rua buscar qualquer coisa para terminar o boneco. Quando voltei subi e desci a escada uma data vezes e já não encontrei a porta do Tom. Confirmei que o prédio era aquele. Tornei a subir e a descer. Ouvi vozes, nenhuma que reconhecesse, nem sequer a língua entendia. Sentei-me à porta do prédio com o boneco na mão e acordei do sonho. Lembro-me exactamente de como era o boneco que fiz. Vou fazê-lo de verdade.

Procura-se.

. Amigos boémios;
. Projectos divertidos e sem consequência;
. Um amor simples como o amor deve ser;
. Umas sandálias castanhas escuras (mas tem que ser aquelas que imaginei).

Não é pedir muito pois não?

5 de junho de 2011

Hoje é em estrangeiro porque não consigo dizer em português.

Today I'm in a private kind of happiness.

Momento cívico no singular.

Votar sempre foi um momento gregário. Acertávamos a hora que não atropelava agendas, definíamos ponto de encontro e lá íamos os três votar. Era uma coisa de família: o meu pai, o meu irmão e eu. Muitas vezes se juntaram a nós amigos, vizinhos ou caras vagamente conhecidas que encontrávamos à porta do liceu e com quem ríamos por nos encontrarmos ali em todas as eleições. Tínhamos todos o mesmo biorritmo eleitoral, aquelas pessoas e nós acabavam sempre por ir mais ou menos à mesma hora e brincávamos "então cá nos vemos nas legislativas". Ninguém tentava combinar cafés e jantares que não iam acontecer, aquele era o lugar onde sabíamos que nos veríamos outra vez.
Estas foram as minhas segundas eleições sem comunidade. Na primeira vez que votei no sítio onde vivo (quando fui obrigada a mudar a minha morada "oficial" de sempre) nem dei por nada porque passei uma manhã à procura do sítio onde devia votar, eram três locais possíveis e eu, claro, fui ao lugar certo na terceira tentativa. O meu primeiro exercício cívico no singular passou entre a chuva. Desta vez sabia exactamente onde tinha de ir. E fui, perdida nos pavilhões porque ainda não conheço os cantos à casa, a tentar ler ao longe os números que se baralham no astigmatismo que continuo a negar por achar que me faz incapaz. Nem uma cara conhecida. Nem um referente geográfico. E, a pouco e pouco, vai-se instalando em mim a sensação de que estou num lugar do meio, onde já deixei para trás uma comunidade e ainda não tenho uma comunidade nova. É um momento singular.

2 de junho de 2011

Post it para o senhor Jobs.

A vida devia ser programada para ter os seguintes atalhos:
. undo
. escape
. redo
. find path
. convert to curves
. sign out
. help

Não tem de quê.

31 de maio de 2011

Das palavras.

Sou das palavras. Já o disse, aqui e em todo o lugar, inúmeras vezes, a sério e a brincar, profissionalmente e entre amigos, em português e em estrangeiro. Sou das palavras. Para mim elas têm forma, contornos, peso, cor, cheiro, densidade, sabor. Toco-as, às palavras. Sou capaz de enfiar a mão no bolso e tirar de lá umas quantas, de as espalhar sobre a mesa, de as atirar ao vento, de as engolir, cuspir, mastigar, pisar, abraçar. São coisas, as palavras. Por isso é que são capazes de me magoar ou de mudar o rumo de um dia quando me fazem sorrir. São coisas, as palavras. E por isso é que às vezes me apetecia agarrá-las pelo colarinho, encostá-las à parede e fazê-las sair. Porque as palavras - pelo menos as minhas - têm vida própria, só fazem o que querem. Sou das palavras.

30 de maio de 2011

Para a S. (como o macaco gosta de banana eu gosto de tiiiiii)

Fanfarra.

Do sofá da sala ouço os ensaios para as marchas populares. Hoje é uma marcha diferente, uma espécie de balada triste e repetitiva, quase fúnebre. Será que morreu um santo?

O sarcasmo é o meu novo BFF.

Chefe: aquela localização do outdoor afinal não é assim tão boa...
J.: achas que não? Conta.
Chefe: há lá umas árvores... sabes, quando vens a subir o túnel... aquilo tapa um bocado...
J (a pensar que o outdoor tem 135m2 e as árvores são dois arbustos pífios): hmmm... OK, não tem problema, vou ligar para a câmara a pedir que aparem as copas porque aquele verde todo tapa-nos a publicidade.

(não se admirem se em breve fizer um post a pedir emprego)

Lisboa, a gaiata.

"Está crescida, a gaiata" pensei. Subi a avenida, ar pesado, tropical. Cheirava àquele misto de jacarandá e ulmeiro. Não há outra cidade que me cheire assim, a herança colonial cruzada com europa. Gente na esplanada, crianças a sair do cinema, sombras que se mexem, sotaques que se misturam: a cidade tem trejeitos, tiques e tons. Gosto da imperfeição e detenho-me a pensar que a cidade-gaiata está crescida, adolescente de borbulhas e calças tamanho abaixo. Há esplanadas na avenida, lojas boas de porta fechada. "Deviam fechá-la ao trânsito, a Avenida" pensei alto "enchê-la de mercados de flores e bugigangas". E depois pensei baixinho "não, isso é fazê-la igual às outras". Gosto da cidade, é um amor que trago por ela, gosto dela como gosto dos homens: assimétrica, imperfeita, com coisas por fazer, com histórias por contar, um dente torto, uma ruga aqui e ali, uma falha. E este amor faz-me querer ser melhor, fazer melhor, crescer junto e fazer-me gente.

29 de maio de 2011

Sinto-me estúpida e contente ao mesmo tempo...

...quando sei que o momento que gosto mais numa música está exactamente no 2'37''.
Como em tudo na vida, o timing é essencial.

Não há coisa que tenha mais cabimento que o amor.

http://www.youtube.com/watch?v=QW0i1U4u0KE

23 de maio de 2011

ainafipe (ou o contrário da epifania)

Um dia acordou e acreditou que tudo tinha mudado. Tinha largado a âncora que tinha no lugar do coração. Tinha deixado de acreditar que estar para os outros é a única forma de estar para nós mesmos. Tinha deixado de querer correr como se não soubesse andar. Tinha deixado de acreditar que podia mudar o mundo. Tinha escolhido ficar. Olhou para as mãos, palmas e costas, e descobriu que afinal estava tudo igual. Até mesmo a sua capacidade de acreditar no impossível.

21 de maio de 2011

18 de maio de 2011

T4

Bem vistas as coisas, o coração é um T4. Tem dois átrios e dois ventrículos, uma espécie de nome pomposo para quarto interior. Tem muito espaço, portanto.

Duas semanas.

Órfã teórica há 10 anos, sem páscoa, natal, festas de aniversário, almoços de domingo ou tupperwares de sopa. A pergunta que se impõe é: como é que vai ser a minha vida daqui a duas semanas?

I'm not gonna tell you "I told you so".

But i'm gonna make the face.

15 de maio de 2011

Em repeat no itunes mental.

http://www.youtube.com/watch?v=kXhBnQfzhAg

Jacques de la Palice em versão de profundis.

Aguenta-se até não se aguentar mais.

A minha mãe.

A minha mãe é uma mulher engraçada. Precisei de crescer, de ser mulher, para entender a mulher que a minha mãe é. Quem nos viu e quem nos vê, quinze anos passados sobre as portas a bater, os gritos, as ofensas, as frases horríveis que, quando damos por nós, é tarde demais. Já não se pode voltar atrás. Há palavras que são pontos de viragem. Há frases que são pontos de não-retorno. Não podendo retornar vai-se à volta. Aprendi eu, já agora, depois de ser mulher suficiente para perceber a mulher que a minha mãe é. Onde bati com a porta, lavada em lágrimas, dou por mim a abrir uma janela, devagarinho. E onde a minha mãe trancou a caixa, dedo em riste, dá por ela a desdobrar o lenço bordado onde guardou as chaves. Há coisas que podemos saber mas não sabemos. Eu sempre soube que ela tinha razão. Agora sei que sim.

11 de maio de 2011

Bad hair day.

Façam-me um favor: da próxima vez que me ouvirem pronunciar a palavra "franja" acompanhada de um qualquer verbo em voz activa, modo indicativo, no presente ou no futuro, batam-me com um pau. Mas assim mesmo para aleijar.

9 de maio de 2011

Os olhos das pessoas.

Os olhos das pessoas são capazes de ver coisas tão diferentes. Hoje, em conversa com duas pessoas da minha equipa, uma dizia: "quando chegaste estava com receio do que vinha aí. Nesse mesmo dia comentei com o meu marido: gostei dela. É dura, mas justa. Segura mas humilde". A outra dizia: "Quando apareceste aqui fiquei preocupada, achei-te arrogante, a achar que sabias tudo". Duas mulheres, mais ou menos da mesma idade (mais velhas que eu), que conheceram a nova chefe exactamente no mesmo dia, na mesma hora. Os olhos das pessoas são capazes de ver coisas tão diferentes.

Cá coisas.

Da feira do livro.

Há o Livro do Desassossego. E depois há o desassossego do livro.

8 de maio de 2011

Vai ficar tudo bem. Isso eu sei.

Se há coisa que sei é que vai ficar tudo bem. Fica sempre. E fica sabendo que não tenho medo. Que não tenho pudor ou moral quando me levanto do chão, apanho a roupa espalhada e abro as janelas. Não há religião que me salve, nem livro de auto-ajuda que me valha. Sou rija, como dizem os antigos. Apesar de, volta-não-volta, me liquefazer por dentro - para o bem e para o mal. Faço fitas às vezes. Mas na maior parte dos dias guardo-me quieta, tento não falar muito porque se abro a boca jorram coisas que depois não sei como engolir outra vez. É uma espécie de poltergeist das palavras, não tem volta. Dá-se mais no papel que na voz, dá-se mais nas letras gravadas que nas ditas. E há irremediavelmente em mim a conviccção de que vai ficar tudo bem. Fica sempre. E às tantas tropeço em ti, que me és tão tão difícil quanto inesperado. E fico muda, tudo muda, num silêncio algo embaraçoso porque afinal ainda não o conquistámos, ao silêncio. Fosse este um dia como outro qualquer e perdia-me nas tuas mãos, nas rugas fugidias nos olhos, no sorriso imperfeito, na perna direita esticada, no pousar do copo. Fosse este um dia como outro qualquer misturava-me em ti a falar com esse sotaque falso que enfiarás distraído na minha boca, empurrando-o com a língua. Fosse este um dia como outro qualquer pedia que ficasses, que subisses. Quero-te perto, nas redondezas, não me interessa se agora não dá, traz pijama e escova de dentes, vem de malas aviadas que a estada pode prolongar-se. Mesmo sabendo - e aviso de antemão - que o meu amor é esquisito, tão depressa foge de ti como te quer aqui colado. Mas tem coração. E dá como se fosse para sempre, mesmo que para sempre seja só amanhã, para o ano que vem e mais dois dias. O meu amor não é petulante, abre os braços e o peito. Faz sol no meu amor. Isso eu sei. Por isso é que, se há coisa que eu sei, é que vai ficar tudo bem.

5 de maio de 2011

O dar (se) demasiada importância.

É sempre a mesma coisa. No final esqueço-me de tudo. De tudo. Porque não tinha assim tanta importância.

4 de maio de 2011

O Beckett fala comigo em português.

Diz-me aos gritos, dentro do coração: falha. Falha outra vez. E outra. Falha melhor.

Farmacologia.

Amigo (com um copo de espumante com gengibre e tangerina na mão): Sabes o que é que dizem do gengibre, não sabes?
J. (armada em eu-sei-tudo-e-mais-um-par-de-botas): é anti-séptico.
Amigo: erh... não, dizem que é afrodisíaco.
J.: ah... pois...

Da natureza humana.

Choca-me quando a natureza humana é contra-natura. E, mais uma vez, respiro fundo, levanto a cabeça e continuo a andar de escudo em riste a proteger a convicção que escolho manter: as pessoas são fundamentalmente boas. (é que se não acreditar nisso não me consigo levantar de manhã)

2 de maio de 2011

Alma de Nemo.

De cada vez que venho às ilhas só me apetecer cá ficar. Ter crescido insular deixou marcas profundas, não posso estar rodeada de mar por todos os lados que começo logo a dar à cauda (de peixe, claro). Fico feliz com esta coisa de estar plantada no meio do oceano. Cá coisas. Vou voltar depressa a este lugar, dá-me alento e coração.

1 de maio de 2011

Subprime dos afectos.

A minha crise é outra. Do crédito de alto risco que me ofereço, com baixo rendimento e alta instabilidade, o colapso generalizado das instituições que reconhecia, o descontrolo das coisas todas que achava inabaláveis, que acreditava estarem lá sem hesitação. A minha crise é outra. E não consigo deixar de pensar que esta coisa toda do FMI-e-diabo-a-quatro se aplica a papel químico no meu mapa dos afectos. Que "troika" em russo significa "três" ou "triplo" e que isso, para mim, é veneno lento e corrosivo que se vê à flor da pele. A minha crise é outra. Falência moral, crise de confiança, retracção, asfixia. Porque, ao fim ao cabo, o que procuro e teimo em não encontrar, é uma matemática simples dos dias, feita a lápis de carvão numa toalha de mesa enrugada. Não preciso de grandes projecções ou análises profundas, 1+1=2 chega-me, sem cinzentos, teorias avançadas ou corolários complexos. Não tenho programação quantitativa no coração para descodificar as subtilezas dos "sim, mas..." ou do "é para casar ou para coiso" ou do peso que tem o rabo da miúda da TV contra o meu que até nem é mau mas não tem direito a três horas de ginásio por dia porque são três horas a mais nas minhas sobrelotadas vinte-e-quatro. E às tantas, eu que até sou das ciências e não tenho medo das matemáticas, perco-me nas progressões e interpolações aritméticas dos afectos. Não me admira que me ocorra precisar de consultar um híbrido de Dr. Phil e prémio nobel da matemática, oráculo de óculos de massa grossa sem lentes e sentido de humor acutilante. Porque eu, confesso, já não sei fazer as contas.  

30 de abril de 2011

Volta não volta volto aqui.

E agora só falta descobrir porquê.

Dia da mãe.

Amanhã é dia da mãe. A única coisa que eu queria mesmo era a minha, num abraço apertado, colo incondicional.

Perguntas e respostas.

Nasci curiosa, cheia de perguntas. Cresci e apareci, apareceram algumas respostas: aprendidas, criadas, esquecidas, inventadas, seguras, hesitantes, meias, inteiras, verdades, mentiras. Continuo curiosa, cheia de perguntas. Além da curiosidade, nascem em mim perguntas que duvido alguma vez conseguir responder. Outras que gostava de ter a quem perguntar. Algumas têm até destinatários mas persistem ancoradas no fundo da garganta, num misto de vergonha, orgulho, dignidade, fúria e nervosismo pueril. Às vezes queria um oráculo. Ou então só um poço sem fundo para onde as pudesse atirar - às perguntas e, às vezes, às respostas - para ter onde as pôr sem pensar mais nisso. Ou então só um ouvido sincero, sem julgamento ou opinião, que me dissesse a verdade, mesmo a que não quero ouvir. E a derradeira pergunta que me faço é o que é que será mais importante neste ponto da viagem: a pergunta ou a resposta. Não tenho resposta.

8 de março de 2011

6 de março de 2011

VrumVrumVrum

Fosse eu objecto seria scooter. Mota-calhambeque enegrecida pelo tempo, mas com cilindrada-cilíndrica a deslizar rua abaixo - e agora mais depressa, bora escorregar pelo carril do eléctrico. E agora que escrevo apercebo-me que deixei para trás o acordo ortográfico, o que me parece legítimo dada a velocidade a que tenho descido a colina e subido a escada para o escritório quando me irrito do tempo de espera pelo elevador. Serve por isso esta nota sem nexo para dizer não desapareci nem me esqueci do ano novo por estrear. Muito pelo contrário: tenho estreias atrás de estreias, das boas e das más. Mil vontades de escrever e coisas imensas presas na garganta e nos dedos, vontade de falar noite dentro sem relógios. Mas os relógios entram-me pela noite e dão-me pauladas na cabeça de adormecer no sofá com computador ao colo, escalfeta dos tempos modernos. E logo logo a seguir é de manhã, fresca e cheia de chilreios dos pássaros e lá vou eu VrumVrumVrum. Lá vou eu carril abaixo a deslizar e a tentar não virar o barco. Voltarei.

2 de janeiro de 2011

E ao soar das doze badaladas.

Menina do papá, eu me confesso. Porque nada me soube melhor este ano do que passar a meia noite a rir ao telefone com o meu pai. (Freud explica) Depois desliguei, tchin-tchin, mais um trago de champagne misturado com french kissing. Dançámos numa varanda com neve, confetti e serpentinas. Repeti "bonne année" até à exaustão com uma marroquina divertidíssima. Discuti o futuro da banca com um francês alucinado. Descalcei os sapatos no fim da noite e dancei um slow de garagem como antigamente. Fiz a mala. Apanhei um avião no primeiro dia do ano e o piloto fez uma graçola no intercomunicador.
Com um prenúncio destes, o ano por estrear tem tudo para ser maravilhoso.

28 de dezembro de 2010

memórias.

Um dia disseste-me que eu era aquela música. Volta-não-volta, às vezes à noite, vou lá ouvir e ver.
E não há vez nenhuma que não me comova. Obrigada por me aligeirares o coração todos os dias.

2011: Um ano por estrear

Finalmente a lista para 2011. Parece-me que vou acrescentar coisas, mas como tudo na minha vida, também esta lista qualifica como "Work In Progress".

12 meses, 12 missões

1. Continuar a procurar a melhor versão de mim;
2. Fazer 10 viagens;
3. Celebrar o regresso da família;
4. Aprender e transformar;
5. Fazer ginástica, jogar ténis, dançar mais (clássico);
6. Aprender a fazer cachecóis em lã;
7. Iniciar um novo projecto de carreira;
8. Reler "Os Maias";
9. Deixar de fumar (clássico, parte II);
10. Aceitar que há zonas cinzentas na vida e ser capaz de lidar com elas;
11. Abraçar mais os amigos;
12. Entender a arrogância e moderá-la.

22 de dezembro de 2010

O dia de hoje.

O dia de hoje honra o nome do blog. Estou feliz.

20 de dezembro de 2010

Bonita o cara&#*

Estou há quatro horas plantada num aeroporto a ver nevar na pista, sem saber se vai demorar mais uma ou 10 horas até poder embarcar. Se alguma vez disse "ai que bonita é a neve" hoje retiro isso tudo e cuspo vitupérios.

12 de dezembro de 2010

It takes time.

(so they say)

10 de dezembro de 2010

Listas.

Aproxima-se um novo ano por estrear. Estou a pensar, pela primeira vez na vida, fazer uma to do list para 2011. Em algum momento o meu fraquinho por listas tinha de dar para aqui.

9 de dezembro de 2010

Constatação da contradição.

Há secas em Cabo Verde, maremotos no mar morto, prostitutas nas Virgin Islands, cisões nos Estados Unidos, uma república democrática em S. Tomé e Príncipe, suicídios no cabo da Boa Esperança, pobreza extrema na Costa Rica, paz em Granada. E depois eu é que sou contraditória...

8 de dezembro de 2010

Conclusão.

Chego à conclusão que, visto de perto, ninguém é normal.

2 de dezembro de 2010

Mudança de paradigma.

Quando era pequenina queria salvar o mundo.
Quando for grande quero salvar-me a (de) mim.

30 de novembro de 2010

Os verbos estar e ser.

Não sei nada sobre separar a alma do corpo. Se soubesse não me tinha entregue há já muito tempo à dormência cínica de uma solidão artificial, pontilhada aqui e ali por seduções de algibeira, tão pueris como inconsequentes, tão alheadas como desinteressantes. Continuo a acreditar no amor - aliás, não é de amor que estou a falar. Continuo a acreditar na infinita capacidade que um olhar, um sorriso, um cuidado pode ter de mudar o rumo dos dias. Continuo a acreditar na possibilidade do amor, na minha capacidade de me maravilhar com o mundo e com as pessoas. Só não sei até que ponto a minha profissionalização no cinismo emocional pode fazer com que isto mude. Para já estou no limbo. Sinto ainda que se me despir fico com o o coração a nú, com a alma virada para fora e sem a capacidade de traduzir as ideias em coisas. Pensar e sentir são, definitivamente, duas coisas diferentes. Mas com a particularidade de, muitas vezes, acontecerem em simultâneo, uma espécie de epifania-vertigem das coisas que não sei se "estou" ou "sou". Para já estou no limbo. E para saltar de cima do muro preciso de perceber se, no que diz respeito à alma e ao corpo, já esgotei o meu direito à inocência e daqui para a frente vai ser sempre assim um cinismo dormente.

5 mistérios insondáveis das viagens de avião

1. Porque é que, ainda antes de a porta de embarque abrir e tendo um lugarzinho marcado só para si, o douto passageiro teima em ficar numa fila interminável em frente a uma porta fechada? É uma forma de pressão sobre a equipa de terra? Está a treinar para a visita trimestral à repartição de finanças?

2. Porque é que, tendo espaço na bagageira por cima da cabeça, o douto passageiro decide transportar a mala, casaco, computador e saco do freeshop algures entre o espaço debaixo do banco da frente e o colo? É medo de que os macacos anões que vivem nas bagageiras vasculhem os seus pertences? É levar demasiado à letra a regra de não deixar a bagagem desacompanhada?

3. Porque é que o douto passageiro aplaude quando o avião aterra? É porque a porta do piloto está fechada e não dá para ir lá dar uma gorjeta? É porque o curso de aviação comercial permite avaliar a perfeição com que o piloto se fez à pista?

4. Porque é que, assim que o avião aterra, antes de o sinal de apertar os cintos se apagar e antes de as portas abrirem, o douto passageiro se levanta? É porque prefere, em vez de estar sentado, estar em pé de pescoço torcido por tempo indeterminado? É porque tem medo que não o deixem sair e seja condenado a viajar em círculos pelo espaço aéreo internacional para toda a eternidade?

5. Porque é que, antes sequer de o tapete de bagagens começar a rolar, o douto passageiro se enfia num buraquinho entre outros doutos passageiros, à laia de construção devota de barreira humana? É porque o tapete não anda à roda e se não se apanha logo a mala ela vai para o buraco negro da bagagem negligenciada? É porque, não vá o diabo tecê-las, a mala pode ir embora sozinha e não ter a morada de casa?

Tenho de ir à wikipédia.

20 de novembro de 2010

Da inexorabilidade do nome.

86 anos, nascida nas beiras, criada no Brasil, construiu a família à sombra da serra. A Preciosa e eu percorremos 300km de mão dada na ambulância e três décadas de amor incondicional. Hoje só queria que pudéssemos caminhar mais um bocadinho, um pé à frente do outro, comigo a repetir-lhe baixinho o quanto honra o nome próprio todos os dias.

18 de novembro de 2010

Da genética.

Sou filha de uma diáspora qualquer. E é como se diz por aí: filho és pai serás, como fizeres assim acharás.

14 de novembro de 2010

Postcards from Italy

Há músicas que cheiram ao passado e me lembram, com a distinta clareza de uma madrugada depois da chuva, das coisas que fizeram valer a pena chegar até aqui. É uma espécie de melancolia-alegre, uma ternura guardada num postal antigo. Não sei se a memória me trai quando me traz só as coisas boas desses dias, não sei se é um revivalismo tonto do que já foi e, como diziam os outros na canção, não volta a ser. Não sei se é a distância no tempo ou memória de passarinho, mas de repente tenho um ataque súbito de saudades do que fomos e de quando tudo era simples e bom. De quando não havia perguntas ou se as havia tinham respostas de encontro. Não sei se é um arrebatamento solitário, este bocado de fim de domingo, o dia em que - já o sabíamos então - não se combina programas, fica-se, só se fica, sem mais nada. Não sei se é um engano, história fabricada no silêncio desolado, um capricho do coração, truque de prestidigitador. Mas de repente, no quieto desta casa que nunca foi a tua, tenho um bocadinho(dão) de saudades tuas. Do que fomos. E acho que pela primeira vez não me sabem amargas.

12 de novembro de 2010

De coração cheio.

Há uma Lisboa escondida que me orgulha e enternece: esta noite no Saldanha vi centenas de sorrisos e acenos, gente na rua a celebrar. Agradeceu-se de peito aberto anos de carinho desinteressado que um homem deu à cidade, que me deu a mim e cada um de nós que por ali passou, apitou, acenou. Celebrou-se a vida daquele senhor, disse-se um adeus sentido, entre sorrisos honestos e cúmplices de gente que fala a mesma língua. Voltei para casa de coração cheio, a transbordar. Porque sei que, se ainda cá estivesse, o Senhor do Adeus teria sorrido, acenado e soprado um beijo a cada um de nós que por ali passou. Eu aceno de volta e digo num sorriso mudo: Obrigada João. Até sempre.

11 de novembro de 2010

Há um senhor do adeus...

Há um senhor do adeus a dizer olá em cada um de nós.

31 de outubro de 2010

nãomorada

Sim, quero ser tua nãomorada. No final das contas percebo que não sei ser outra coisa.

Fica o dito pelo não dito.

Por mais que fale há sempre coisas que não digo, há sempre coisas que ficam por dizer. E a verdade é que sempre foi assim.

28 de outubro de 2010

Eu queria um FMI na minha vida.

Já que o governo não os quer cá podem mandá-los para minha casa que ando precisada de alguma austeridade, que alguém tenha mão em mim.

17 de outubro de 2010

Como estou?

Se não pararem de perguntar como estou vou ter de vos dizer a verdade: que estou sentada na sala de espera a ler uma Caras de Setembro de 2008, a fazer tempo para entrar na sala. Chamam-lhe a antecâmara da insanidade e eu espero pacientemente a minha vez. É um bocado como ir ao dentista.

Quantas vezes se pode começar do zero?

(um post assim à laia de tweet)

12 de outubro de 2010

Quarto acto.

Era pacata e inquieta. Criatura sossegada por fora, desassossegada por dentro. Entrava em cena triunfante, cabeça erguida, costas direitas, peito feito. Ninguém desconfiava. Admiravam-lhe a robustez, a fortaleza, os saltos mortais. 
No primeiro acto era o susto, um medo miudinho que se instalava ali no fundo do dedo do pé. Tinham medo dela porque era capaz de tudo, porque era invencível e dava a volta a qualquer esquina. Diziam que era respeito, mas era só o suor frio de ver o dedo no gatilho. Ela tinha medo do medo e fazia a corte, embalava, dizia que vai ficar tudo bem. Eles sossegavam e deixavam-se ir. Ela sossegava e deixava-se ficar.
No segundo acto era o orgulho, uma certeza incerta de que as pessoas se fazem de fibra e estopa, resistem ao vento. De que o que vale a pena só vem com esforço e de que nascemos para resistir. Olhavam para ela e viam determinação, ela olhava para ela e via obstinação. 
No terceiro acto era a revolta, o aborrecimento feito em forma de mudança, o diletantismo feito em forma de negação. Eles olhavam para ela e viam-na multifacetada, ela olhava para ela e via um desassossego intrínseco que não a deixava dormir.
No quarto acto ela não apareceu. Olharam uns para os outros em espanto, os olhos arregalados que antecipam a desilusão. Poucos perceberam que as pancadas de Molière eram afinal o bater do coração.

Freu explica.

"No mais fundo de ti
eu sei que traí, mãe!
no fundo dos teus olhos!

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais!

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura!

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos...

Mas tu esqueceste muita coisa!
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? -,
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
"Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal..."

Mas - tu sabes! - a noite é enorme
e todo o meu corpo cresceu...

Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas..."

Eugénio de Andrade

26 de setembro de 2010

Casa.

Não é de hoje que tenho casa sem a ter. Desterrada por dentro, faço ninho sempre que aterro num espaço novo. A minha amiga S', também ela deterrada, diz que nem quadros na parede consegue pôr porque as casas não são dela. Ao contrário da S' eu penduro quadros, ponho tapetes, faço arranjos, pinto, planto, ocupo, arrumo, arranjo, amanho, faço de conta que é "casa" a casa que nunca é. Brinco às casinhas num vão-de-escada qualquer. Faço casa sem a ter, sem a ser. Tramada esta coisa da geografia-morada, até porque nunca encontro aquela linha de livro de auto-ajuda que diz que a casa é onde está o coração. O meu não tem residência fixa, é de não-lugares, de não-coisas, coração de desterro. E não é o fascínio melancólico pelas margens distantes, isso já eu sei - até porque já não é qualquer margem distante que me atrai, apesar de serem as mais distantes que mais me chamam, aquelas que precisam de conquista. Mudar de casa, de morada, de código postal não me custa. Não odeio mudanças. Não me cansam os caixotes e as carrinhas, não me maçam as papeladas. Não me custa, até me agrada. Porque cada mudança anunciada traz na ponta da língua o sabor da aventura, do desconhecido, do pode-ser. E essa sim é a minha margem, a minha casa.



7 de setembro de 2010

Da precipitação.

Filha de um químico, nunca me faltaram o Lavoisier, o Chang, o Mendeleev, o Boyle, o Raoult. Cresci no meio da ideia de que a química fazia tudo no mundo e que o mundo fazia tudo da química. Fui criada e fiz-me gente numa educação cartesiana, embalada na lógica matemática, abraçada na sedução mágica da razão, açoitada pela racionalidade porque se-não-vês-não-existe-e-se-não-se-repete-não-se-pode-provar. Quando sonhava alto, sonhava nos corredores de míticos laboratórios secretos, uma alquimia de Panoramix. Nunca aprendi música, nunca aprendi dança, nunca aprendi a desenhar - a não ser aquela disciplina herdada do estado novo, aquela do desenho técnico e da tortuosa linha perfeita a tinta-da-china (sem borrar nada senão a menina tem de começar tudo de novo). Cresci cartesiana, penso logo existo. "É disciplinada mas muito dramática." dizia a professora primária em tom de uma-no-cravo-outra-na-ferradura. "É inteligente mas muito precipitada." dizia a outra da preparatória, exactamente no mesmo tom. E nesta crítica (a que o meu pai chamava lição e dizia, com razão, que era só assim que se aprendia) eu frustrava os meu imberbes complexos de super-herói e fazia beicinho porque tinha tido 19.8 em vez de 20, com certeza era burra. Ficou-me a lição da precipitação. Lembro-me de não percebido e de ter andado às voltas com aquilo muito tempo. É que a precipitação para mim era aquele fenómeno químico em que o sólido se separa do líquido em que está diluído e se deposita quieto no fundo do balão de erlenmeyer. E lembro-me de pensar que se a lição era ficar quieta no fundo eu não queria - e por isso tinha porque tinha de aprender a resolver a precipitação.

Hoje já sei o que é a precipitação além da química. Mas ainda não a consegui resolver.

5 de setembro de 2010

Comove. Ilumina. Transforma.

How to be alone, by Tanya Davis

If you are at first lonely, be patient. If you've not been alone much, or if when you were, you weren't okay with it, then just wait. You'll find it's fine to be alone once you're embracing it.

We could start with the acceptable places, the bathroom, the coffee shop, the library. Where you can stall and read the paper, where you can get your caffeine fix and sit and stay there. Where you can browse the stacks and smell the books. You're not supposed to talk much anyway so it's safe there.

There's also the gym. If you're shy you could hang out with yourself in mirrors, you could put headphones in (guitar stroke).

And there's public transportation, because we all gotta go places.

And there's prayer and meditation. No one will think less if you're hanging with your breath seeking peace and salvation.

Start simple. Things you may have previously (electric guitar plucking) based on your avoid being alone principals.

The lunch counter. Where you will be surrounded by chow-downers. Employees who only have an hour and their spouses work across town and so they -- like you -- will be alone.

Resist the urge to hang out with your cell phone.

When you are comfortable with eat lunch and run, take yourself out for dinner. A restaurant with linen and silverware. You're no less intriguing a person when you're eating solo dessert to cleaning the whipped cream from the dish with your finger. In fact some people at full tables will wish they were where you were.

Go to the movies. Where it is dark and soothing. Alone in your seat amidst a fleeting community.
And then, take yourself out dancing to a club where no one knows you. Stand on the outside of the floor till the lights convince you more and more and the music shows you. Dance like no one's watching...because, they're probably not. And, if they are, assume it is with best of human intentions. The way bodies move genuinely to beats is, after all, gorgeous and affecting. Dance until you're sweating, and beads of perspiration remind you of life's best things, down your back like a brook of blessings.

Go to the woods alone, and the trees and squirrels will watch for you.
Go to an unfamiliar city, roam the streets, there're always statues to talk to and benches made for sitting give strangers a shared existence if only for a minute and these moments can be so uplifting and the conversations you get in by sitting alone on benches might've never happened had you not been there by yourself

Society is afraid of alonedom, like lonely hearts are wasting away in basements, like people must have problems if, after a while, nobody is dating them. but lonely is a freedom that breaths easy and weightless and lonely is healing if you make it.

You could stand, swathed by groups and mobs or hold hands with your partner, look both further and farther for the endless quest for company. But no one's in your head and by the time you translate your thoughts, some essence of them may be lost or perhaps it is just kept.

Perhaps in the interest of loving oneself, perhaps all those sappy slogans from preschool over to high school's groaning were tokens for holding the lonely at bay. Cuz if you're happy in your head than solitude is blessed and alone is okay.

It's okay if no one believes like you. All experience is unique, no one has the same synapses, can't think like you, for this be releived, keeps things interesting lifes magic things in reach.

And it doesn't mean you're not connected, that communitie's not present, just take the perspective you get from being one person in one head and feel the effects of it. take silence and respect it. if you have an art that needs a practice, stop neglecting it. if your family doesn't get you, or religious sect is not meant for you, don't obsess about it.

you could be in an instant surrounded if you needed it
If your heart is bleeding make the best of it
There is heat in freezing, be a testament.


25 de agosto de 2010

Modo interior.

Não tenho palavras redondas, trago-as bicudas, angulosas. Não tenho as palavras redondas que me traduzem de dentro para fora, trago-as pontiagudas, a disparar setas de não-cupido. Trago palavras que não são minhas - mesmo que as redondas continuem por dentro a rebolar - mas as que chegam a ver a luz do dia picam. Muitas são as que ficam na rede, essa protecção invisível dos outros, uma rede mosquiteira que tenho na garganta e retém muitas farpas. Engarrafada fica, a maior parte das palavras bicudas. E acabam por se misturar com as redondas e fazer uma confusão geométrica por dentro dos cadernos que trago no peito. Talvez por isso ande sem família, sem comunidade. Talvez por isso tenha escolhido o recolhimento, esta espécie de solidão auto-imposta. "Ando mona", assim explico sem explicar muita coisa a quem pergunta e estranha a ausência. A disposição gregária que me caracteriza, o amor dos outros, pelos outros, a necessidade intrínseca do encontro são agora coisas "por dentro". Quero e sei que preciso. Mas não vou, não dou, não sou. Estou em modo interior. Escrevo por dentro, onde estão as palavras redondas, as que sou eu, as que me dizem coisas. Estou com o mundo em modo interior.

12 de agosto de 2010

Da ideologia que é o amor.

O amor sobrevive graciosamente, todo ele força e ferro e fogo, todo ele verdade e intensidade, todo ele pureza e devoção. Esta ideia de amor, assim explicada em dois minutos de palavras, como quem olha uma reprodução gasta da fotografia de sempre, Doisneau de postal em cima do fogão. À medida que o tempo passa guarda-se a ideia de amor no coração, num pequeno bolso apertado, empurra-se para dentro até doer, amassa-se com fervor devoto o nome escrito, pequenino, numa dobra do braço - porque sim, o coração tem braços senão não podia abraçar. Olha esperançada o postal - podia pensar-se desiludida com tombos e truques, com escadas e vãos. Olha distraída o postal - podia pensar-se que se fundiu com a tinta da parede, vidros duplos, arquitectura dos dias. Desvia o olhar do postal - podia pensar-se um amor incompreendido, um amor impossível, um amor desesperado. Logo depois ela decide que importante mesmo é aquela figura no postal, aquela figura onde não há ainda dor, onde ainda não há mácula, só amor. E é tão simples, o postal, um amor acidental de tropeçar na rua sem cair, de virar esquinas, de caminhar de peito aberto. Um amor de papel, de guardar no coração, memória feliz, cristalizada em sais de prata. Porque talvez o amor seja isso mesmo: de papel. De ideologia. De verdades profundas escritas a preto que depois ganham corpo e perdem alma. Talvez o amor seja de papel, como uma filosofia política que parece ideal e quando se pratica não funciona. E essa ideia de amor não sobrevive à consumação: perde o valor que tem quando se realiza, é teoria, potencial. E - para mal dos nossos pecados - essa ideia de amor fica marcada, num lugar profundo algures entre a garganta e o estômago, num postal gasto em cima do fogão. 


(é urgente salvar o amor)

6 de agosto de 2010

Nota mental.

Nota mental: se alguma vez disser que sim, que talvez faça sentido ter filhos, por favor amarrem-me a uma fraga e joguem-me ao rio. Combinado?

28 de julho de 2010

Depois de uma passagem pelo facebook a meio de uma insónia...

... acho que estou preparada para escrever mais um capítulo do Tratado Anti-Tesão. Ele há com cada cromo.

26 de julho de 2010

A pergunta que se impõe (e não me sai da cabeça).

O que é que eu tenho para dar ao mundo que mais ninguém possa dar?

20 de julho de 2010

Da inevitabilidade.

Não se segura o riso, não se seguram as lágrimas. Coração na mão, alma na mesa, mesmo ali ao lado do copo de sumo de laranja com maracujá. O maracujá dá sono, pensei. Mas não disse. Quero ajudar as pessoas a não deixar fugir a imaginação, a não deixar de ver cães com asas e céus cor-de-pastel-de-nata. Quero ajudar a crescer na alegria, no riso, no amor. Sabes bem que foi para isso que nasci, para dar aos outros e para ajudar a crescer. Sabias isto desde sempre e esperaste até ao fim do jantar para me trazer a resposta das coisas todas que já sabias, mesmo que não soubesses que sabias. Há uma página por escrever, a primeira das páginas todas. A primeira página das histórias do primeiro namorado de rabicho piroso que na década de noventa tinha uma pinta descomunal. A primeira página das dores de coração que se alastram para a garganta e me prendem a perna esquerda em dor ciática (tive vergonha de te contar). A primeira página de uma história de um amor de caserna que é o nosso, porque sabemos que se não nos tivéssemos encontrado hoje teria de ser amanhã. Porque o mundo era um sítio muito pior se não te tivesse por perto para me dares a mão ao coração e para me contares uma história que começa com "my dog". E eu a comover-me com cada palavra que te saía das mãos porque o meu cão tem mesmo asas. E o meu coração também. Por isso é que é bom e tem coisas para dar, porque pode voar para longe e trazer-te lá dentro, porque podes voar para longe e ficar aqui. Porque há dias em que, às vezes à noite, me salvas a vida. E isso é infinitamente maior que falar da inevitabilidade de estarmos na vida um do outro. Obrigada Rui.

14 de julho de 2010

O país dentro de mim.

Dentro de mim há um país. Povoado de gente estranha, singular, excessiva, um circo de cores e vozes, de gente feliz que dança e corre de pés descalços. Dentro de mim há um país sem regras nem leis que não as do sorriso, da paz, da alegria, do fazer crescer, do correr atrás dos sonhos, do imaginar, do voar tão alto quanto quisermos. Dentro de mim há um país de vegetação imensa, fulgurante, viva, colorida, de sequóias gigantes e nenúfares mínusculos. Dentro de mim há um país de mil línguas e dialectos, linguagem gestual e coisas que não precisam ser ditas porque essas são mesmo aquelas que é preciso saber. Dentro de mim há um país sem fronteiras, sem muros, sem rei, sem arame farpado. Dentro de mim há um país sem guerras, só batalhas, convulsões que se fazem para proteger a geografia interior das invasões que o podem destruir. Dentro de mim há um país de histórias de gente que tropeça e vem cá parar, um país de memórias boas que as más são para guardar no seu lugar: nas histórias e fábulas que se contam às crianças para que aprendam a distinguir o certo do errado. Dentro de mim há um país de portas abertas, outras portas fechadas no trinco sem dar a volta à chave, de janelas abertas sobre o mar, de tapetes e soalhos de madeira velha polida pelo tempo. Dentro de mim há um país de sonhos, de coisas que se vê acontecer num futuro próspero e de paz. Dentro de mim há um país feliz, bom, enorme, com tudo por descobrir. Dentro de mim há um país. E só quero voltar a encontrar o caminho que vai lá dar.

9 de julho de 2010

28 de junho de 2010

Porque sim.

Hoje cheguei ao meu carro e estava coberto de flores roxas das árvores da minha rua. Fez-me pensar que há dias que começam de forma muito poética. Lá no fundo, tenho um lado poético-pastoril.

Hoje vi um pássaro grande carregar um pássaro mais pequeno, uma autêntica cena de caça em plena cidade. Fez-me pensar que dentro de cada espécie devia haver um código de honra: pássaros só deviam poder caçar ratos, gatos só deviam poder caçar cães, ursos só deviam poder caçar pumas, póneis só deviam poder caçar coelhos. Mas a vida não é assim, a vida é desarrumada e com poucas regras e códigos. Lá no fundo, tenho um lado existencialista.

Hoje almocei no restaurante de uns amigos e senti que, se eu quisesse, fariam um prato ou sobremesa especial, só para mim. Fez-me pensar que há dias que se tornam excepcionais só por causa de pequenos detalhes. Lá no fundo a única coisa que me seduz realmente são os pequenos detalhes.

Hoje vim do trabalho a guiar com música alta, a cantar a plenos pulmões, divertindo os condutores dos carros ao meu lado. Fez-me pensar que o que levamos de facto da vida é isso: divertir o mundo, divertirmo-nos com o mundo.

Hoje escrevi num e-mail para uma amiga as palavras "só porque sim". E continuo a acreditar piamente que, apesar das coisas intelectuais e estratégicas que me apaixonam na vida, "porque sim" continua a ser a melhor resposta do mundo. Por isso apeteceu-me vir aqui escrever, procrastinar o trabalho que tenho para fazer, só porque sim.

24 de junho de 2010

Desabafo.

Tenho tantas saudades dos meus amigos. 
As saudades doem-me sempre nas plantas dos pés e é difícil andar para a frente.

16 de junho de 2010

Desculpas em papel azul de 25 linhas.

A primavera amolece os corpos e os espíritos, suaviza as arestas. A mim virou-me a vida do avesso e remeteu-me ao silêncio de quem tem muito para dizer mas não tem mãos a medir. Perdoem-me os meus adorados leitores a rude e prolongada ausência. Deixo a promessa de melhores dias e do regresso às lides verbais na próxima estação. O verão trará o sol a brilhar e mergulhos frescos no mar. Isso eu sei. 

Deixo por isso, depois de fechar o último documento de trabalho há minutos, uma carta de desculpas, 25 linhas finas impressas em papel azul, a selar no tom operacional e burocrático no qual me tenho visto submersa. É que esta coisa de vender ideias às vezes tem a chatice de gerar listas intermináveis, escritas a lapiseira 0,5, frases encavalitadas que dizem o que falta fazer - chamam-lhe "fazer acontecer". Eu por mim tinha as ideias e passava ao próximo, mas há que dar o corpo ao manifesto. Entretanto vou pondo mãos à obra e afastando do cérebro a vontade imensa de me imolar, de fazer cortes a x-acto entre os dedinhos dos pés, de ustular cada milímetro daquela pele fininha por dentro dos braços e de rezar para que os aviões que me transportam de cidade em cidade caiam e se desfaçam em mil bocadinhos. Se nada disto acontecer até ao verão voltarei. Prometo.

1 de maio de 2010

O tempo.

Ando outra vez às voltas com o tempo, com a forma como ele se esvai por entre os dedos e quanto mais o tentamos agarrar mais rápido escorre por aí abaixo. As últimas semanas de trabalho têm sido muito duras, muito agitadas, intensas e parece que o tempo todo é sempre insuficiente. Há tantas coisas por fazer, todas prioritárias - já deixei para trás as urgentes e as adiáveis, só tenho em mãos as prioritárias - e o tempo passa sem sequer dar por ele. E esta minha velha amiga, a ansiedade do tempo, a urgência, a pressa - cabra - que volta sempre para me agitar porque ainda não tratei dela. Estou cada vez mais convencida de que o universo nos traz as mesmas encomendas várias vezes na vida - e continuará a trazê-las - até sermos capazes de as resolver. Encontrarei no percurso esta ansiedade tantas vezes quantas forem necessárias para, de uma vez por todas, aprender a lidar com ela. E a pressa é solitária: corre sempre em sprint e angustia-se a olhar para trás e a perguntar "ainda estás aí?". A pressa agita, atropela, segue, tem prazer no vento que bate na cara. Mas não deixa de ser solitária. A pressa é uma cabra safada que dá uma no cravo o outra na ferradura: faz-me sentir viva e mata-me por dentro.

Mas nem tudo é pressa e ansiedade. Há por aqui uma espécie de paz, fora do trabalho e do bulício dos dias. Há uma paz em casa, onde é vital - dessa ainda não consigo falar aqui, ainda não tenho as palavras. E sei que é essa paz que tenho de proteger. É urgente protegê-la, tenho pressa de a proteger.

Trecho de uma carta a um amigo

"Fazer isto é ser fiel às coisas em que acredito: fazer. agir. andar para a frente. ser agente de transformação. ser motor e gasolina. (...) Sei que tenho de fazer isto. Porque nasci para limpar, para fazer crescer, para empurrar, para puxar carroças, para lidar com empresas e pessoas com potencial e, como tu dizes, "pegar nelas" - lembras-te quando dizias que "devia haver um gajo qualquer a pegar em mim"? Talvez hoje já saibas (pelo menos um bocadinho) que temos tudo em nós, as respostas todas. E que por isso podemos saltar para o vazio se o nosso instinto nos disser para o fazer. Porque o instinto, esse cabrão, é quem nos fala a dizer quem somos, é quem nos guia e nos diz que não faz mal nenhum arriscar, empurrar, puxar. Porque só assim é que se faz movimento. Tudo o resto é ficar parado."

E, quando penso nisso, acho sempre que digo as coisas importantes às pessoas importantes enquanto escrevo. E descubro coisas em mim à medida que o faço.

Hoje é dia do trabalhador.

Por isso vou trabalhar.

20 de abril de 2010

Hoje é um daqueles dias.

Hoje é um daqueles dias em que só me apetece deixar-me ir no marasmo e deixar de nadar contra a corrente. Hoje é um daqueles dias em que só me apetece não ter de fazer, façam com que as coisas apareçam feitas e tratadas, truque de prestidigitador. Hoje é um daqueles dias em que não me apetece decidir e hoje, só hoje, decidam tudo por mim: da escolha do almoço à palavra final no projecto. Hoje é um daqueles dias em que não me apetece aconselhar, apoiar, guiar ou conduzir, guiem-me, olhos vendados em confiança cega como a justiça. Hoje é um daqueles dias em que não me apetece pôr um pé à frente do outro, ponham-me rodas e empurrem-me rua abaixo. Hoje é um daqueles dias em que não me apetece fazer o jantar, ponham-me um funil como se fossem fazer paté. Hoje é um daqueles dias em que não me apetece impor ritmo, digam-me só que música tenho de dançar. Hoje é um daqueles dias em que não me apetece abrir a porta do armário e escolher, vistam-me uma coisa qualquer só para não ir para a rua como vim ao mundo. Hoje é um daqueles dias em que não me apetece abrir nem fechar, subir nem descer, empurrar nem puxar. Hoje é um daqueles dias em que não me apetece falar, deixem-me só aqui sossegada com os meus botões que já há vozes demais. Hoje é um daqueles dias em que foi o dia todo ao contrário do que me apetecia. Amanhã vai ser melhor.

18 de abril de 2010

Apercebi-me agora...

... que estive 11 dias sem publicar nada neste fórum. Shame on me (esta não é alheia, é minha mesmo).

Vergonha alheia.

Sofro de um mal que muito me aflige: a vergonha alheia. Quando menos espero há uma crise que me assalta e me contorce as entranhas. Não sou habitualmente capaz de prever quando vai acontecer, aparece muitas vezes sem aviso e sem sintomas. Não tenho como dizer "acho que estou a chocar uma crise de vergonha alheia". E não há panaceia que me valha. Sempre que acontece, à semelhança de crises de urticária e insónia, não há muito a fazer: respiro fundo, franzo a testa e, sempre que possível, escondo a cara na gola de um casaco ou numa almofada. Esta coisa da vergonha alheia é embaraçosa e cansativa: já não me bastam as vezes todas que faço eu própria figuras tristes e me envergonho, também tenho de me envergonhar com as coisas dos outros. Foi mais ou menos isso que me aconteceu ontem, deitada no sofá, a ver o novo programa do Herman José.