Votar sempre foi um momento gregário. Acertávamos a hora que não atropelava agendas, definíamos ponto de encontro e lá íamos os três votar. Era uma coisa de família: o meu pai, o meu irmão e eu. Muitas vezes se juntaram a nós amigos, vizinhos ou caras vagamente conhecidas que encontrávamos à porta do liceu e com quem ríamos por nos encontrarmos ali em todas as eleições. Tínhamos todos o mesmo biorritmo eleitoral, aquelas pessoas e nós acabavam sempre por ir mais ou menos à mesma hora e brincávamos "então cá nos vemos nas legislativas". Ninguém tentava combinar cafés e jantares que não iam acontecer, aquele era o lugar onde sabíamos que nos veríamos outra vez.
Estas foram as minhas segundas eleições sem comunidade. Na primeira vez que votei no sítio onde vivo (quando fui obrigada a mudar a minha morada "oficial" de sempre) nem dei por nada porque passei uma manhã à procura do sítio onde devia votar, eram três locais possíveis e eu, claro, fui ao lugar certo na terceira tentativa. O meu primeiro exercício cívico no singular passou entre a chuva. Desta vez sabia exactamente onde tinha de ir. E fui, perdida nos pavilhões porque ainda não conheço os cantos à casa, a tentar ler ao longe os números que se baralham no astigmatismo que continuo a negar por achar que me faz incapaz. Nem uma cara conhecida. Nem um referente geográfico. E, a pouco e pouco, vai-se instalando em mim a sensação de que estou num lugar do meio, onde já deixei para trás uma comunidade e ainda não tenho uma comunidade nova. É um momento singular.
5 de junho de 2011
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