16 de janeiro de 2010

O café a ver o rio.

"Nasci numa tenda no sótão da minha avó", começa por dizer. Com grande fascínio pelos poemas de todos os dias, anoto divertida a frase enquanto lá fora chovem cães e gatos. Filho de retornados - perdão de retornado, no singular, porque quem nasce em Moçambique e veio para Portugal depois do 25 de Abril não retorna, emigra. Melómano e diletante, desfia histórias com camadas e camadas das coisas todas que tem para contar, viagem no solitário banco de trás numa estrada larga de percursos familiares. Arquitecto desassossegado, apaixonado pela estética de todos os dias - "a Vicri, não conheces a Vicri?!" - veste-se de menino grande a fugir ao cinzento. Fuma com prazer as cigarrilhas num dos raros cafés da cidade onde ainda se pode fumar e fala da varanda com som na Avenida de Roma, onde faz os telefonemas do fim do dia a fingir que está na rua. Encontrou no segundo casamento a paz para descansar o desassossego do primeiro e desassossega-se com uma carreira que ainda não acabou de desenhar. Perde-se e encontra-se no meio de histórias e graças como se estivesse a moldar uma peça que não sabe bem o que vai ser, o que ele vai ser. Trocamos partidas para pregar aos amigos, película aderente para embrulhar os dias. Entusiasma-se com fita-cola dupla face que usa para colar telefones ao tecto e isso faz-me sorrir por dentro porque me lembra a S' no seu fascínio da fita-cola. Tem um cabelo de mulher pendurado na haste dos óculos porque se penteou com a escova da M. e ela ficou ali o dia inteiro, como se isso não fosse sempre assim - comovo-me com a pequena intimidade, com as pequenas coisas do amor. Despedimo-nos apressados porque deixámos fugir as horas na amena cavaqueira de quem se está agora a conhecer. Mas sei que um destes dias vou encontrar outra vez o R., numa qualquer mesa onde se possa fumar e jogar conversa fora. Obrigada. O meu dia ficou muito melhor.

15 de janeiro de 2010

Da teoria dos contrários. Ou a lata descomunal.

Eu trabalho com ideias. Trabalho com negócios, pessoas, informação, argumentos, soluções criativas. Neste campo sempre tive uma tendência natural para contra-argumentar, para virar as coisas ao contrário, fazer muitas perguntas, procurar outras respostas, experimentar coisas diferentes, processos e métodos que não os meus. Tenho uma tendência nata para me atirar para fora de pé. Não é bom nem é mau, é assim. Saio naturalmente das minhas zonas de conforto e dou saltos de fé. Comecei por fazê-lo de olhos fechados e testa franzida, cheia de medinhos. Correu bem. E fiz outra vez. E outra. E outra. Foi correndo sempre bem e acabou por se tornar um hábito e por se transformar num traço de personalidade. Esse caminho fez de mim uma pessoa de saltos mortais. Como aliás, de cada vez que tenho de apresentar o meu percurso profissional, se nota à légua. Como aliás, de cada vez que conheço alguém que me interessa ou fascina, se sente de imediato. Se no campo profissional isto fez de mim alguém relativamente reconhecido (presunção e água benta...), no campo pessoal já me deu alguns dissabores. Entre leituras enviesadas - dos próprios ou dos outros - falhas de comunicação e castelos de areia, já me aconteceu de tudo. Porque a verdade é que tenho uma lata descomunal, daquelas latas grandes-contentor-de-porto-marítimo. E se gosto de alguém - homem, mulher, por pura curiosidade, por puro interesse humano, por empatia, por simpatia, por humor, por-amizade-ou-algo-mais - faço por isso. Faço por conhecer melhor, por perceber, por descobrir. Porque se há coisa que amo perdidamente e que me fascina até ao último fôlego são as pessoas. E as grandes conquistas da minha vida, os meus mais queridos amigos, foram descobertas assim, a dar o flanco, a perguntar, a combinar coisas inusitadas, a criar oportunidades para conhecer. Porque também com as pessoas ponho em prática a teoria dos contrários, venço a timidez, refreio a auto-censura, subverto as regras. Porque confio que vai correr tudo bem. Mesmo que do outro lado a primeira leitura seja desconfiada e cuidadosa, seja precavida ou apreensiva. Porque todos os meus saltos mortais com pessoas - o exercício da minha lata descomunal - trouxeram à minha vida, à minha história, as pessoas notáveis e magníficas com quem tenho o privilégio de partilhar o caminho. Continuarei por isso a fazer saltos mortais. Mesmo que isso, de vez em quando, me custe um crânio rachado no asfalto (sim, daqueles cheios de sangue e nhanha como se vê nos filmes). O que é que tenho a perder? Talvez um pouco de mistério - ai o que eu adorava ser aquela morena misteriosa dos filmes. Um pouco de paz - por causa dos mal entendidos. Um pouco de dignidade - ainda há quem ache que eu sou mesmo só maluquinha, sendo que acredito piamente que quem não está para se dar ao trabalho de ver o livro além da capa interessa-me pouco. O que tenho a ganhar? Eventualmente mais uma pessoa fantástica na minha vida. Feitas as contas, compensa em larga escala.

14 de janeiro de 2010

hosomaki ou uramaki.

Hoje tenho um almoço onde vou ter de decidir se quero hosomaki ou uramaki. Mais do que uma opção de culinária nipónica vai ser uma decisão que pode mudar a minha vida - alga por fora, arroz por dentro ou arroz por fora, alga por dentro. O peixe, confesso, é-me indiferente. Desde que seja fresco e limpinho, cheio de proteínas.

13 de janeiro de 2010

De tanto bater o meu coração parou.

Falamos sobre o amor. De visões romantizadas, pragmáticas, paradigmáticas, pueris, realistas, literárias. Salta - fatal - a pergunta: mas tu sabes o que é o amor? E fico inevitavelmente a pensar nisso, numa apneia, letra suspensa. Porque bem vistas e ditas as coisas, essa é a única pergunta. Não sei se sei o que é o amor, porque sei que o amor tem essa coisa muito muito boa que é ser sempre capaz de se transformar. Sei que o amor se reinventa e refaz como pode. Sei que o amor se aninha de maneiras diferentes no mesmo sofá. Sei que o amor nos tem, não somos nós que temos o amor. Sei que o amor cresce e diminui para crescer outra vez. Sei que o amor é as coisas todas e é coisa nenhuma. Sei pouco sobre o amor. O amor que sei é o amor que conheço e sei como esse foi. Mas sei também que, um dia que ele volte a aparecer, vai ser outra coisa - por isso não. Não sei o que é "o" amor. O amor que conheço, aquele que tive a sorte que se tenha aninhado por aqui, foi um amor discricionário, indivisível. Foi um amor que tomou conta de mim - logo comigo, que tomo sempre sozinha conta de mim. Foi um amor educativo, transformador. Foi um amor que soube receber e que deu até doer. Foi um amor imenso que me tomou por dentro e me virou do avesso. Foi um amor inabalável até abalar. Foi um amor justo, bem-aventurado. Foi um amor aventureiro, desafiador. Foi um amor visceral e um amor sossegado. Foi um amor mexido e um amor quieto. Foi um amor que foi muitas coisas, tantas coisas quantas consigo dizer. Foi um amor que ficou, que se deixou estar muito muito tempo. Foi um amor que não se foi embora quando foi embora. Mas não. Não sei o que é "o" amor.

12 de janeiro de 2010

Eu sou uma besta.

Eu sou uma besta. Um tractor. Bruta como as casas. Dura que nem um portão. Mas com uma particularidade, só sou assim para as pessoas de quem gosto muito. Quando me é indiferente não sou capaz de hipérboles. É uma espécie de equilíbrio, o gostar muito vem com arestas duras e com brutalidades ditas de coração, porque tem de ser. Não sei fazer de outra maneira. Acredito no gostar incondicionalmente das pessoas que escolho e com isso vem uma dose de bestialidade que não sei domar. Sou excessiva. Sou excessiva no amor, sou excessiva na amizade (que é igual ao amor mas com menos pele e sem trocas de fluidos). Sou excessiva na atenção. Sou excessiva na dedicação. Sou excessiva nas coisas que digo, faço, escrevo, desenho (como diz a minha Madalena, não sei desenhar mas gosto). Sou excessiva quando gosto. Sou um tractor, levo tudo à frente, defendo com unhas e dentes as pessoas que escolho, estou lá para o bem e para o mal, em todos os sentidos. Rio-me e brinco com as "minhas pessoas", como choro e me zango com elas. Não consigo ser indiferente, apática, desapaixonada. Porque só escolho as pessoas que, por algum motivo, me apaixonam. E isso é verdade para dar colo e é verdade para ter conversas duras - desculpa, às vezes à noite sou bruta. Sou uma besta. Vem com o pacote.

Poemas de todos os dias.

Happiness isn't always the best way to be happy.

Maurice Sendak, Where the wild things are.

Do uivo.

Acho que, em geral, uivamos pouco.

11 de janeiro de 2010

É pecar ou largar.

Assim de vez em quando, a fazer-me distraída, tonta, aceno-te um olá ou uma piada qualquer a ver se me dás troco. Mas a verdade é que, mais tarde ou mais cedo, sei que não vou estar para aí virada. É que agora ainda estamos em estado de graça e eu estou aqui a portar-me bem, sem contudo deixar de ser generosa, disponível, amigável, paciente. Daqui a nada estala-se-me o verniz, salta-me a tampa, acontecem-me aqui pequenas revoluções e, acredita, viro-te o mundo de pernas para o ar, rebenta-a-bolha, mesmo-assim-sem-querer-e-ai-desculpa-que-não-queria-ser-assim-bruta. Daqui a nada entra-se-me aqui em erupção a minha incapacidade crónica de ser paciente e, pela tua alminha, tem cuidado e não te atravesses no meu caminho. Não te ponhas a debulhar motivos ou a disparar coisas que não devias dizer, que isso cá para mim é só garganta e eu tenho dias em que me falta poder de encaixe e o sorriso sempre pronto a desenrolar. Não me canses que isso estraga-me a traquilidade e só me apetece estragar-te com mimos, fazer-te primaveras e verões e depois é uma carga de trabalhos. Não me piques, deixa-te estar aí quieto porque eu tenho um fraquinho pela iminência do desastre, pela pica alucinada do "antes", pelas fantasias pueris do que fazia e acontecia. Não me estragues, não te estragues, não guies fora de mão que um destes dias encosto-te à parede e aí é que a porca torce o rabo porque não vais ser capaz de pôr a acção onde tens a palavra. Não me dês corda que te enrolas e tropeças - depois não digas que não te avisei e não te ofendas quando eu lançar arrogante o clássico "i'm not gonna tell you i told you so but i'm gonna make the face". Não me dês trela que eu viro o boneco com a insensatez da tesão, congelo aqueles segundos antes de mandar um piparote e desmontar de enfiada um castelo de areia. Não me atices que eu pego fogo e depois é uma trabalheira descomunal para ir buscar os extintores e mantas de amianto para controlar os estragos. Não incites a violência da minha impulsividade, controlada a pulso este tempo todo, a fazer que sou grande, séria, adulta e consciente. Não balances a pena suspensa num fio que eu já estou de rabo felino espetado a balançar, pupilas verticais, pronta para saltar de garras afiadas. Não me torres a paciência que eu tenho alturas em que entro em combustão espontânea, come-enquanto-está-quente-senão-isso-não-tem-gracinha-nenhuma. Não me irrites, que eu tenho dias em que é mesmo pecar ou largar.

10 de janeiro de 2010

Sintaxe.

Era uma vez um homem tão subliminar, tão subliminar que se transformou numa elipse.

Monstros e histórias.

Fico com ebejeebies por saber que amanhã vou ver em filme uma história que tantas vezes li, que tantas vezes aconteceu na minha imaginação. Gosto de antecipações, como aquele momento antes do primeiro beijo. Gosto de pensar como serão os monstros desenhados por outras imaginações que não a minha. E, por gostar muito de histórias infantis, fico maravilhada com essa antecipação. Porque as histórias não dizem às crianças que os monstros existem - isso as crianças sabem de ginjeira. As histórias ensinam às crianças que os monstros podem ser encantados, expulsos (se forem maus), conquistados. As histórias infantis não (nos) dizem que os monstros existem, só dizem as coisas infinitas que podemos fazer com eles.

9 de janeiro de 2010

burn, burn, burn.

"They danced down the streets like dingledodies, and I shambled after as I've been doing all my life after people who interest me, because the only people for me are the mad ones, the ones who are mad to live, mad to talk, mad to be saved, desirous of everything at the same time, the ones that never yawn or say a commonplace thing, but burn, burn, burn..."

Jack Kerouac, On the Road.

Metam a tesão para dentro.

Os meus sábados são feitos de encontros. De sol a sol, a bater perna pela cidade velha, a saltar de café em café para cumprir a agenda cheia de gente para ver, conversas para pôr em dia, apoio moral, novidades bombásticas, histórias tristes, pequenas histerias passageiras, partilhas das mais diversas. Hoje calhou ser um sábado só de mulheres - cinco encontros com cinco mulheres que, umas mais presentes que outras, vão estando na minha vida. É refrescante ter um dia assim, sendo que a grande maioria das pessoas na minha vida são homens e sempre me vão faltando pelo caminho algumas referências de lipstick jungle.

Das cinco mulheres quatro são casadas, emparelhadas, amatizadas ou qualquer outra definição do género que implique um "nós". E as quatro estão a atravessar momentos difíceis nos respectivos emparelhamentos. Ainda não percebi porque é que estas criaturas maravilhosas vêm ter comigo com pedidos de conselhos e opiniões, sendo que é do domínio público que eu tenho pouco talento para o "nós" e parca experiência em relações bem sucedidas. Confrontadas com este facto, em uníssono alegam a minha lucidez, o meu pragmatismo e a determinação com que "mordo" a vida. Aceito os elogios mas continuo na mesma, sem perceber porquê.

Estas quatro mulheres emparelhadas, todas entre os 30 e os 40, vivem hoje momentos de ruptura e há-os para todos os gostos: o homem que saiu de casa com uma criança de meses porque se apaixonou perdidamente por outra pessoa, o homem que dá umas voltinhas por fora e esconde tão bem que frustra qualquer instinto apurado, o homem que dá voltinhas por fora e não faz qualquer esforço para esconder. Não digo que as minhas mulheres não tenham culpas no cartório nem que sejam monumentos irrepreensíveis à vida conjugal - mas também não vou entrar por aí porque não tenho qualquer legitimidade para avaliar o que quer que seja.

A grande conclusão do dia está no papel que assumi hoje (um papel no qual sou sempre boa): o advogado do diabo. Estive então o dia inteiro a defender os homens destas minhas mulheres - não necessariamente a defender o indefensável, mas a trazer à mesa uma perspectiva diferente. Dei por mim a racionalizar infidelidades, a defender o amor paternal, a proteger os homens destas minhas mulheres de pequenas vinganças e humilhações (as mulheres conseguem chegar a um extremo assustador de insanidade quando rejeitadas).

Chegado o fim do dia e antes de ir para "o senhor que se segue", dei por mim a reiterar uma conclusão já antiga que me frustra no sexo oposto - e sinto-me com legitimidade para o dizer porque o meu círculo é muito masculino - falta coragem aos homens. Falta verticalidade. Falta que os tenham no sítio. Porque jamais conheci um homem que tenha deixado de fazer parte de um "nós" sem ter um novo "nós" adiante, sem ter uma razão concreta e objectiva para perseguir e conquistar a seguir. E isso frustra-me. Por mais que adore os meus homens, revejo neles também esta característica. E por mais que adore os meus homens tenho muito mais mulheres que assumem na personalidade, atitude e escolhas de vida a característica morfológica predominante da masculinidade. Sem punhos de renda, conheço mais mulheres com tomates do que homens.

E por isso, apesar de ter passado o dia inteiro em defesa dos homens, vou - aqui que ninguém nos ouve - parafrasear uma senhora de quem muito gosto e dizer: Homens deste mundo, metam a tesão para dentro e façam o favor de erguer outra coisa.

8 de janeiro de 2010

Da sombra do sobreiro.

Tenho um sobreiro. Tenho, aliás, dois mas só um é meu. Tenho um sobreiro de que gosto muito porque o vi nascer de uma semente pequenina que bem podia ter sido dada ao porcos no Alentejo para se fazerem gordinhos para a matança de Setembro. Mas não, a semente pequenina veio parar-me às mãos porque a mulher do O. queria que os sobreiros se fizessem grandes e frondosos para um dia filhos ou netos se deliciarem com a sombra fresca e húmida que as árvores grandes dão. O meu sobreiro foi plantado com amor, rompeu na dúvida e foi crescendo no alheamento. Tinha já um simpático (quase) metro quando mudou de casa e continuou a crescer, mesmo sem vista para o rio. Manteve-se hirto e verde-vivo num verão tórrido. Aguentou-se às agruras de um outono quente demais. Sobreviveu à violência de um início de inverno que se tornou bruscamente glacial. Hoje estava morto. Tive vontade de lhe declarar o óbito em voz alta e publicar-lhe uma fotografia e elogio fúnebre num jornal. Foi um bom sobreiro, apesar de não ter crescido o suficiente para que me pudesse, velhinha, deitar à sua sombra a ler um livro do futuro. O segundo sobreiro sobrevive, desfolhado mas vertical, com força anímica para aguentar o inverno que falta. Um destes dias regressa à sua terra natal, ao quintal onde pertence. E a mim, que me escapa por vezes o pé para coisas assim mais para o metafísico, fica-me a saudade boa do sobreiro e a vaga sensação de que esta morte natural é sinal de renovação.

Há elogios que nos tiram a respiração.

"Ontem vi finalmente o dvd do Coco avant Chanel e passei o filme todo a ver-te ali a costurar destinos."

7 de janeiro de 2010

A mercearia cá do bairro.

Se há coisa que me dá prazer é tropeçar em pessoas. Não em sentido literal - embora aconteça frequentemente porque acho que nasci com dois pés esquerdos - mas tropeçar como quem interrompe inesperadamente um caminho de todos os dias e muda de direcção. É ir à mercearia do bairro e, em vez de trazer as maçãs e o açúcar que estão na lista, chega-se a casa com um sabor bom de conversas entre gente que se entende e fala o mesmo dialecto, tantas vezes alienígena. E pensando nisso não posso deixar de ficar contente pelo simples facto de isso ser possível. Sem mais nada. Sem planos ou expectativas, sem pressões ou equívocos. É o que é. E há dias em que isso faz infinitamente mais sentido do que todas as outras coisas escritas, cinematográficas, densas, complexas, intrincadas. Isto hoje é muito muito simples: tenho uma sorte extraordinária nos meus tropeções. E isso é muito bom. Só porque sim.

6 de janeiro de 2010

Sintaxe.

Era uma vez um homem tão bem vestido, tão bem vestido que se transformou numa figura de estilo.

Demasiado inteligente para ser amante.

Agora escolha.

Diálogos surreais.

senhor do café: desculpe a pergunta, é professora?
ela: sou...
senhor do café: ali da escola? (aponta com a cabeça na direcção do jardim infantil/escola primária)
ela: não, não, dou aulas a adultos, numa faculdade. (sorriso) Porquê? Tenho cara de professora primária?
senhor do café: por acaso até tem...
ela: não percebi bem se isso era um elogio...
senhor do café: eu também não.

(Aconteceu algures em Setembro, mas lembro-me sempre desta conversa quando entro no café e o senhor me diz "olá sôprossora")

Dr. Strangelove.

Descobri que há uma desordem neurológica a que se chama Dr. Strangelove syndrome. E é, nem mais nem menos, do que uma forma de apraxia em que os membros (tipicamente as mãos, mas nunca se sabe...) fazem tarefas involuntariamente. Uma mão, por exemplo, pode abrir botões de uma camisa ou despir roupa sem que, na maioria das vezes, o "dono" da mão se aperceba.

(http://en.wikipedia.org/wiki/Alien_hand_syndrome)

Acabei de juntar mais esta desordem à minha pequena lista de alegadas anormalidades clínicas. A partir de agora a minha lista passa a ser:
- Tourette
- Narcolepsia
- Dr. Strangelove syndrome

Há coisas extraordinárias, não há?!

Maçã-s, maçã z.

Muitos foram os anos em que perdi documentos por não gravar - ora a bateria do computador cedia, ora o programa dava erro, ora acontecia qualquer outra carnificina típica da vida de um documento com prazos apertados. O "save" tornou-se por isso o meu porto de abrigo para evitar a falha, o meu reduto de salvação que impedia o taberneiro que há em mim de "baixar" e soltar esconjuros em forma de palavrões cabeludos. Em anos de computadores e processadores de texto ganhei o tique maçã-s.
Outro fiel amigo ganho a pulso nestas lides foi o "undo" - a possibilidade de, a cada passo, voltar atrás, reverter e fazer de conta que o erro não aconteceu. Duas teclas, dois dedos (de testa?) e tinha de novo a folha em branco, o potencial, a ausência de erro. Num segundo, nada tinha corrido mal, aquela palavra não estava no lugar errado à hora errada, o erro ortográfico deixava de existir, a conclusão precipitada desaparecia por magia, a falibilidade estava blindada num truque de prestidigitador: agora vês, agora não. E em anos de computadores e processadores de texto ganhei o tique maçã-z.
Com estes tiques e truques, acho natural que este método se transfira para a vida fora do processador de texto: gravar insistentemente coisas na memória. Ter um plano B para o caso de erro. Só dar um passo em frente se o soubermos reversível, não vamos nós correr o risco de perder o que já fizemos. Por isso acho perfeitamente natural que, à medida que vamos processando cada vez mais e mais palavras, histórias, tratados e declarações, nos tornemos cautelosos por defeito.

(a minha sorte é que há oito anos trabalho em computadores que falham menos que os do Sr. Gates, o que me vai permitindo moderar os tiques. É uma espécie de maçã-r.)

5 de janeiro de 2010

Da insónia.

Há uma beleza perversa na insónia, uma mistura de asneira e suspiro. Há algo de interessante na passagem física do tempo enquanto se espera para adormecer - é quase como uma massa nuvens baixas que passa ali rente ao nariz apontado ao tecto, que se move muito muito devagar, mas depressa o suficiente para percebermos que se está a mover. É um tempo com textura, com densidade. Não tem cor nem cheiro, mas é físico, paira ali mesmo por cima da cama, ao alcance de duas mãos quase abertas, dedos flectidos para agarrar essa massa de tempo. Tenho insónias desde criança, é uma condição crónica, com fases melhores e piores, dependendo do quanto consigo gerir a ansiedade e parar a cabeça, congelar as ideias. Recuso-me a tomar comprimidos para dormir, não gosto do sono falso porque não sonho. E eu sonho sempre - sempre que durmo - e lembro-me sempre dos sonhos, coisa que eu achei sempre que era um presente especial só para mim, o cérebro a compensar-me, dorido e culpado, da insónia. Porque o meu cérebro é um pai divorciado: exagera mimos e presentes deliciosos para compensar a ausência. Sonho imenso, com detalhes, nomes, cheiros, texturas e outras fisicalidades perfeitamente distintas, os meus sonhos existem, têm corpo e vida, é estranho, são pedacinhos de real numa dimensão irreal ou numa hiper-realidade. Uma das coisas boas da insónia é que se tem imenso tempo para pensar. Em contrapartida, uma das coisas más da insónia é que se tem imenso tempo para pensar. Tenho uma relação de amor-ódio com a minha insónia: amo-a desmedidamente por ser o meu espaço solitário e livre para a reflexão e, quando acaba, traz-me o presente de sonhar em HD. Odeio-a desmedidamente porque não há nada melhor que dormir bem, profundamente, sem hora para acordar, a preguiça a rebolar naquele tempo gasto entre a lucidez e a possibilidade, cama quente e desapego, desassombro em posição fetal.

4 de janeiro de 2010

Da bipolaridade. Ou hiper-lucidez.

(ou como fiquei quase duas horas com ebejeebies por causa da cópia autografada do meu livro preferido do Andre Jordan)

Composição sobre a amizade.

A minha amiga Rita merecia uma estátua. Daquelas grandes, brilhantes, em bronze, pespegada num qualquer topo do mundo para que hordas de comuns mortais se pudessem dirigir a ela em romarias devotas. A minha amiga Rita vai corar e zangar-se comigo quando ler isto. É assim, a minha amiga Rita, teima em não aceitar o quão avassaladora é, teima em não deixar que lhe façamos elogios rasgados - aqui não tens safa que só eu é que posso apagar, pôr e dispor do pequeno poder à mercê de públicas declarações de amor. A minha amiga Rita disfarça, assobia para o ar, quando lhe entro pelos olhos azuis adentro e lhe digo que o tamanho do seu coração me engelha a humanidade. A minha amiga Rita comove-se com as minhas histórias tristes e sorriem-se-lhe os olhos com as minhas histórias felizes. A minha amiga Rita é das criaturas mais deliciosas que este mundo já pariu e às vezes só me apetece agarrar num megafone e ensurdecê-la consecutivamente com esta verdade, dita na voz esganiçada que faço quando me comovo. Sei que se o fizesse ela ia chamar-me parva. A minha amiga Rita chama-me parva muitas vezes e por isso gosto todos os dias um bocadinho mais dela. A minha amiga Rita merecia que lhe dissessem de duas em duas horas o quão extraordinária é, posologia clinicamente prescrita sem ser preciso ler a bula porque os efeitos secundários são sempre bons. A minha amiga Rita é digna de todas as redacções pueris que se escrevam acerca dela, como se isto fosse um caderno da escola com o TPC das férias de natal, "meninos, hoje vamos fazer uma composição sobre a amizade".

Diálogos surreais.

(...)
ela: vieram cá entregar mas eu não estava em casa.
ele: pena. se calhar tinha sido melhor entregar em mão.
ela: o PMP funciona sempre melhor que a MRW...
ele: antes isso que TPC.
ela: TPC dá mais trabalho que PMP?
ele: Para a próxima trago o TPC PMP.
ela: mas não sem antes pedires RSFF, ok?
ele: ok, não vás tu estar em TPM e mandar-me para a PQP.

Não é bonito dizer isto alto...

...mas tenho um ódio de estimação por pequeno-burgueses-deslumbrados.

Sintaxe.

Era uma vez um homem tão pouco literal, tão pouco literal que se transformou numa expressão idiomática.

Das hipérboles.

Acho que li demasiados livros, vi demasiados filmes - não no cinema, mas daqueles que se repetem incessantemente na desinteressante televisão de domingo à tarde. Acho que esse facto, aliado a uma imaginação fértil, faz de mim uma pessoa com um fraquinho por hipérboles. Não, não é bem um fraquinho, acho que isso faz de mim uma pessoa de hipérboles por defeito. Sou de exageros, imagino sempre gestos grandiosos, frases épicas, momentos colossais, finais explosivos. Nas mais pacatas situações imagino uma narrativa paralela, em que todos os personagens são de epopeia, coragem irrepreensível, força de leão. Premissas definidas, a narrativa é épica, dramática ou até lírica (sempre tive a mania das bandas sonoras). Vejo sempre uma intriga Queirosiana, um enredo intrincado e complexo, centrado num conflito digno da mais nobre literatura. Faço heróis, vilões, pares românticos e, na maior parte das vezes, trago a cena um comic relief. O narrador, de voz profunda e grave, vai explicando e acrescentando detalhes, assinala peripécias, antecipa reviravoltas - o meu narrador é normalmente omnisciente, mas é discreto, o sacana, bem que podia interferir e fazer-se também realizador.
As minhas narrativas paralelas são excitantes. Falam de proibições, de armadilhas, de conivência, de magia, de confronto, de castigo. Ao herói - que normalmente nem sou eu - acontece de tudo: a punição, a injustiça, o reconhecimento, a vitória, a partida, a transfiguração. Ao anti-herói acontecem as mesmas coisas, mas normalmente, à medida que se aproxima o clímax, as coisas não lhe correm muito bem. Claro está que isto é verdade nas minhas narrativas paralelas. Na esfera real a coisa é muito mais simples - a realidade raramente supera a ficção. Falta vigor aos gestos. Os personagens são indolentes, tímidos ou simplesmente não estão para se dar ao trabalho. As palavras são ocas. Os cenários são tudo menos cinematográficos. Os diálogos pobres. A banda sonora é uma mistura sem critério. O argumento é, vezes demais, banal. Os efeitos especiais são nada de especial. O guarda-roupa falha imensas vezes nos tamanhos - ora grande, ora pequeno. Sucedem-se os erros de raccord. E o casting, nem vale a pena começar a falar do casting.
A conclusão a que chego é que os tempos não estão para grandes épicos, hoje é tudo mais ou menos simples, minimal. É quase como se a vida fosse um filme de série B: tem o seu encanto, um infinito potencial, mas faz-se o que se pode com o que se tem. Mas isso não faz com que goste menos de hipérboles.

Sintaxe.

Era uma vez uma mulher tão exagerada, tão exagerada que se transformou numa hipérbole.

3 de janeiro de 2010

Surgiste de repente no meio de coisas proibidas.

Até no Correio da Manhã há poesia. A fé tem destas coisas.

2 de janeiro de 2010

Sintaxe.

Era uma vez uma mulher que gostava tanto das suas contradições que se transformou num oxímoro.

Da geologia. Ou do ano novo.

O meu primeiro dia do ano é sempre um espécie de ausência. Congelo o tempo, não aceito convites, não faço planos, deixo só o dia escorrer por entre as arestas e escarpas. Vou sempre ver o mar - não que faça disso uma espécie de tradição, mas acaba por acontecer, por mais voltas que dê - volto sempre ao ponto de encontro e constato que não fiz mais do que partir. Acabo por concluir que não se volta, nunca se volta. Mas parte-se sempre, mesmo que não se saiba ao que se vai, nem como, nem porquê. Não há nunca regressos, o caminho muda de ano para ano: a erosão, os caminhos dos outros, a vegetação que progride, os sentidos proibidos. Tudo acontece entre parêntesis, de Janeiro a Janeiro, para nos lembrar que não podemos voltar ao lugar onde estivémos no ano anterior. E sentada a olhar o mar, a maldizer a minha incapacidade de me agasalhar convenientemente, fico com uma espécie de sorriso parvo, olhar perdido-encontrado. Deito um olhar vago às camadas geológicas dos meus verbos - querer, perguntar, ir, estar, fazer, morder, ler, escolher, viajar, descobrir, amar, escrever, arrumar, encontrar, morrer. Penso sempre na influência anímica que as palavras - minhas e dos outros - exercem sobre mim. Penso nos gestos mortos e enterrados, nas escolhas fossilizadas, sem retorno ou possibilidade de encontro. Sorrio à sorte que tenho em descobrir, volta não volta, um geodo - sempre me aconteceu, tropeçar inadvertidamente em coisas muito muito boas. Olho para os movimentos tectónicos do ano, de como pequenas coisas se fizeram coisas gigantes ou de como grandes movimentos trouxeram pequenos detalhes. Penso nos terramotos - reais e interiores - e chego novamente à conclusão de que são sempre bons, dei-me sempre muito bem com abalos profundos, saltos mortais, terra a tremer. E tal como a geologia serve para determinar a idade da terra, a minha geologia dá-me a medida exacta do tempo que passou. Deixa-me ver as camadas de registos mais ou menos sólidos do caminho que já percorri. No próximo Janeiro há mais. Nesta entrada a pés juntos no ano novo guardo a profunda convicção de que se avizinham erupções plinianas, de que me farei Vesúvio e Krakatoa. Isso eu sei.

31 de dezembro de 2009

Do ano velho.

No que toca a anos, acredito em fins sem retorno. Acredito na impossibilidade objectiva e real de recuperar o que lá vai. Acredito na linearidade do tempo e na nossa incapacidade de voltar atrás para fazer diferente. Acredito que se pode jogar e ganhar, mesmo quando nos convencemos de que perdemos. E acredito também que podemos perder e estar convencidos de que ganhámos. Acredito que um ano é um caminho que se faz em frente, sempre em frente, mesmo que por estradas diferentes, a velocidades inconstantes, ora a pé, ora de bicicleta, ora de comboio, ora parado. Acredito que à medida que o tempo avança as lembranças se vão esbatendo e o que fica de um ano são traços gerais, como num desenho a carvão guardado num livro, perdem-se os detalhes, esbatem-se as arestas, evapora-se a definição. E como dizia há uns dias a minha adorada Rita, podemos esquecer-nos dos detalhes de uma história, do que foi dito ou feito, mas não nos esquecemos do que se sentiu. Porque o coração tem memória e é imune à oxidação que o tempo produz.

Acredito em balanços, sumários mais ou menos exactos do que foi um dia. Acredito em caminhos que se fazem por um motivo qualquer, mesmo que o motivo não seja óbvio quando se faz o caminho. Acredito no poder do tempo e no nosso poder de mudar o mundo, de o transformar. E isso foi o meu ano de dois mil e nove: A transformação. A ruptura. O destruir para construir. O soltar amarras. A libertação. A limpeza. O fazer ruir anos passados para aceitar de peito aberto os anos que vão chegar.

Foi um ano duro, difícil, solitário, sofrido. E foi um ano maravilhoso, transformador, cheio de esperança e de alegria.
Mudei de vida, mudei de endereço. Sobrevivi mais uma vez. Perdi dois amigos porque precisei de salvar a minha integridade emocional, a minha sanidade mental (às vezes a vida é feita de escolhas espinhosas). Ganhei três amigos que mudaram a minha vida e sei, porque sim, que vão ficar. Deitei ferro e âncora aos meus quatro amigos de sempre. Larguei a convicção antiga de que conheci e perdi o amor da minha vida. Acredito hoje que tive a sorte de o encontrar, mesmo que nos tenhamos desencontrado. Chorei muito. Ri muito mais. Larguei um percurso profissional notável e de ascensão meteórica. Ganhei amplitude e humildade para aprender mais. Desfiz-me de doze anos de coisas acumuladas. Fiz espaço para mais doze. Destruí. Desfiz. Demoli. Aniquilei. E (re)comecei a criar.

Dois mil e nove foi o ano antes da viragem, que antecede o que vai ser. É fim de ciclo. Deixo para trás uma boa parte da minha história. E se tiver saudades, sei que vão ser saudades boas. Por isso deixo-as guardadas num sítio específico, dou-lhes número de porta e nome de rua. Para um dia, se quiser, saber lá chegar.

Sintaxe.

Era uma vez uma mulher tão independente, tão independente que se transformou num verbo intransitivo.

30 de dezembro de 2009

Eu sou uma pessoa simples.

Por isso estou a abanar a cauda de contente e vou só ali namorar o casaco novo que o sr. e-bay acabou de me fazer chegar.

Embrulha.

J. - 1
deus - 0

Faz-me um verão.

Andas para aí escondido a fazer que não estás. Mas eu sei que sim, que estás algures por aí, na dobra de uma esquina qualquer. Sei que me tentaste ligar, se ao menos tivesses o meu número. Sei que quando viras a cabeça na rua, ar alheado, é só porque não sabes bem como é que eu sou e por isso continuas a ver se me vês. Sei que quando chegas a casa do trabalho, acendes a luz do corredor e atiras as chaves para o móvel da entrada, e sai-te um suspiro de quem esperava que eu já tivesse chegado, se ao menos soubesse a morada. Sei que te irrita, tal como a mim, que as embalagens de cebolas nos supermercados sejam sempre a contar com quatro. Sei que escreves secretamente sobre mim, se ao menos lesses estas cartas. Sei que pensas em marcar as férias para o fim do verão para teres tempo de me convencer a ir também. Mas sabes que eu sou o verbo ir, e por isso marcas na mesma. Sei que quando olhas o cinecartaz escolhes os mesmos filmes que eu e gostas mesmo é de ir ao Londres ou ao King porque são os únicos que fazem intervalo. Sei que gostas de banda desenhada e que andas há imenso tempo à procura daquela primeira edição que eu tenho num caixote, se ao menos tivesses um x-acto. Sei que gostas do silêncio de domingo de manhã a ler o jornal e que não é a mesma coisa enquanto não encostas o teu pé ao meu debaixo da mesa. Sei que gostas de móveis velhos mas ainda não me ajudaste a restaurar a secretária do meu avô. Sei que gostas de ficar acordado até às quatro da manhã num dia de trabalho só para podermos ter aquele bocadinho de transgressão, quando o mundo todo acha que já estamos a dormir. Sei que não te incomoda a minha cicatriz e gozas comigo por ter vergonha dela. Sei que gostas de comer pizza com as mãos porque há coisas que não foram feitas para se comer de faca e garfo. Sei que preferes o calor ao frio mas não dispensas uma boa paisagem bucólica nevada - só por um bocadinho porque faz doer as mãos. Sei que não te irritas por eu andar sempre desassossegada porque sabes que quando estamos só os dois eu fico quieta no teu colo. Sei que sabes que a minha resposta preferida é "porque sim", se ao menos perguntasses qualquer coisa. Sei que sabes que no verão fico feliz só porque sim e que estar sol e calor é quanto basta para mudar o rumo dos dias. E eu sei, de ginjeira, que um destes dias vais aparecer para me fazer um verão. Isso eu sei. Porque sim.

Sintaxe.

Era uma vez um sujeito cheio de predicados.

29 de dezembro de 2009

Da geografia.

Tenho as minhas incoerências - e ai de quem mas vier querer tirar. Tenho os meus momentos de discrepância entre o que sinto e o que faço, entre o que sei e o que não quero saber, entre o que faço e o que acredito. Tenho os meus momentos de dissonância cognitiva, de tensão entre o que me é verdade e as coisas que me levo a fazer. É quase como nos desejos animados, o anjinho e o diabinho, o grilo falante, que de vez em quando sacudo e deixo andar a coisa como se não houvesse mal nenhum. Porque a tensão, o desconforto de ser incoerente é quase como um diapasão com que se afinam os dias - e há dias em que afino comigo mesma. O conflito, esse grande filho da puta, balança entre um sorriso honesto e um sorriso pernicioso, é ao mesmo tempo lobo-mau e capuchinho vermelho. É como se algures entre as coisas que acredito e as coisas que faço houvesse um fio que se rompe temporariamente e aniquila a auto-censura necessária à sobrevivência. E quando dou por mim, escorrem-me entre os dedos duplas leituras e desafios, saem-me coisas que não deviam sair - comporta-te, diz o grilo. E, sacudido o grilo, lá sai mais uma mensagem, mais uma linha numa conversa escrita, mais um e-mail escrito à pressa para o grilo não ter tempo de saltar do ombro, heróico, e fazer delete, maçã-z. Todos temos as nossas incoerências. Mas as minhas contradições moem-me e sentam-me ali no meio, entre o preto e o branco, entre o impossível e o vagamente possível, entre o sim e o não, entre o norte e o sul, entre o sossego e o desassossego, entre a distância geográfica e a vizinhança de um pescoço. A minha contradição está geograficamente entre 2.200km e 3cm, a meio caminho entre o estômago e o esófago.

28 de dezembro de 2009

Sei-te.

Quando nos encontrámos já nos tinhamos conhecido antes, já nos tínhamos cruzado algures. Acho que já tinha feito um qualquer caminho contigo, um inevitável roteiro de todos os dias. Já nos tínhamos sentado lado a lado na paragem de autocarro do liceu, já tínhamos estado à espera de alguém - que não nenhum de nós - num café com paredes de azulejo, já tínhamos chamado o mesmo taxi, já nos tínhamos cruzado no consultório do dentista, já tínhamos estado costas com costas numa livraria qualquer. Isso eu sei. Sei porque te reconheço. Mesmo quando me faltam os nomes, quando me faltam as caras ou quando me sobram as palavras que não peso antes de dizer - boca de alguidar, já me chamava a minha avó. Reconheço-te. Sei-te quando decides catalogar as ideias, os minutos, as acções. Sei-te quando tentas sacar nabos da púcara sem ideia de onde a coisa vai parar. Sei-te quando usas os esquemas de sempre para simplificar o que é complicado ou ajustar o que é desajustado. Sei-te quando te moem as arestas das babaridades que disparo na tua direcção. Sei-te quando o teu olhar fica turvo de repente e fazes uma piada qualquer para ver se eu não reparo. Sei-te quando tentas explicar-me que não consegues exlicar. Sei-te quando agendas conversas para depois porque agora não tens tempo, espaço ou atenção que chegue para as coisas que achas que são grandes e sérias. Sei-te quando tentas tactear um caminho para chegar amanhã. Sei-te quando te ris de piadas que não têm piada nenhuma senão a piada parva de estarmos os dois ali a fazer piadas. Sei-te quando me tentas explicar que não somos irmãos mas somos fraternos. Sei-te quando me tentas explicar a diferença entre amor e amor. Sei-te quando não sentes que pertences. Sei-te quando te perdes com o desarme que faço, com a transparência com que te explico o meu interesse por alguma coisa. Sei-te porque te vejo. Sei-te porque já nos conhecíamos antes de nos conhecermos.

38 minutos.

A guerra mais curta da história da humanidade foi travada a 27 de Agosto de 1896 entre o Reino Unido e Zanzibar. Durou 38 minutos.

A história é simples: morreu o sultão de Zanzibar, amigo dos ingleses. A sucessão foi feita por um outro sultão, não tão amigo dos ingleses. Havia um terceiro sultão, esse sim, amigo dos ingleses. E os ingleses queriam o sultão amigo, não o que não os curtia nem com molho de tomate - como todos sabemos, os ingleses em geral apreciam molho de tomate.
Fizeram birra, os ingleses, e lançaram um ultimato que terminava à 9h da manhã do dia 27 de Agosto (porque terminarão todos os ultimatos, pequenos e grandes, à 9h da manhã?). O sultão independente não ligou nenhuma à birra, mas pelo sim pelo não, não fosse o diabo tecê-las, convocou um exército civil e colocou-o a defender o porto.
Os ingleses chegaram, armados até aos dentes. Morreram 500 civis em Zanzibar. Um marinheiro inglês ficou ferido (tenho cá para mim que tropeçou numa corda e caiu no tombadilho, mas isso sou eu que tenho uma imaginação fértil).
E assim terminou a guerra mais curta do mundo - em 38 minutos se decidiu que uma ilha no oceano Índico pertencia a outro bando de insulares com tendência colonialista.
Já outros colonialistas, quase tão insulares, tinham reclamado a ilha em 1499 como ponto estratégico da Rota da Seda. Foram expulsos porque tiveram mais olhos que barriga - embrulha Vasco da Gama.

Moral da história: 38 minutos são suficientes para mudar o mundo.

Tudo-muito-aqui-e-agora-para-sempre.

Dei por mim a pensar que há alguns anos (mais do que os aceitáveis) achava sempre que aquela vez ia ser única, irrepetível, maior, inteira, tudo-muito-para-sempre, e-ai-que-me-morro-para-aqui-se-te-vais-embora. Era tudo para sempre, eram só primeiras vezes, e por serem primeiras eram últimas. Era tudo do mais, do maior, do gigante, do absurdo-a-transbordar. Depois cresci e embruteci (talvez mais do que o aceitável) e descobri que atrás de uma vem outra. E outra. E outra. E mais uma, que agora até me apetece. E ainda outra, porque se calhar é por aqui. Isto até parece maduro e, de alguma forma, cool, sem dramas, sem ilusões. É uma coisa de adultos, de gente grande. É uma coisa de pragmáticos, de gente inteligente que não se ilude. É uma coisa de gente que sabe o que quer e não vai ser apanhada na curva, que sabe ao que vai.
Who are we kidding? O que nós queríamos mesmo mesmo era ser ainda capazes de acreditar que aquela vez é a única, maior, inteira, tudo-muito-para-sempre. De uma forma nada cool, muito adolescente.

27 de dezembro de 2009

Morder-te o coração.

Pedi emprestado à Patrícia Reis o título de um dos livros. Já os li todos e aguardo ansiosamente que ela me ponha nos escaparates mais um ou dois. Desde que o meu Alçada Baptista foi desta para melhor falta-me quem me fale dos afectos como eu os sei. Ninguém como o António ou a Patrícia, com as devidas diferenças geracionais, me soube falar de afectos como os entendo, como os vejo. Ninguém me soube falar da fúria como eles. Ninguém mais me soube contar histórias de guerra. Ninguém mais me soube falar de conquistas e demandas, de braços armados até aos dentes. Muitos leio que me falam de paz, de harmonia, de encontro, de sossego, de equilíbrio mas não encontro aí definições de afectos. Não encontro aí o que é visceral. A violência crua dos socos no estômago. A irascibilidade que explode no peito. A tirania do tempo que nunca é suficiente. A opressão da vida que acontece entre parêntesis até chegar a hora de te ver. O desassossego inato nas cartas que não saem da gaveta, dos telefones que não tocam, das noites sem dormir. Não encontro no sossego uma definição de amor. Não vejo na pacatez um espaço de encontro. Defeito meu, eu sei. Porque já se sabe que a paixão dá lugar ao amor, que a guerra dá lugar à paz, que a força dá lugar à lassidão. Defeito meu, não vejo isso. Não sei o caminho para lá chegar porque o amor para mim é tão simples como o título da Patrícia: gostar de ti é morder-te o coração.

25 de dezembro de 2009

Hoje é a mim que me dói a garganta.

É manhã de natal e está tudo muito silencioso. Gosto dele assim, do dia. Quieto, parado, como se estivesse a preparar alguma. Gosto dele assim, a guardar verdades num silêncio cortado por um ou outro carro que passa apressado lá fora, atrasado para o almoço de natal, a arrastar a ressaca do vinho a mais ontem à noite. Está tudo tão quieto que quase acho que me vai aparecer aqui o menino jesus a pregar-me uma partida, a dizer "bú!". Despido, a arrastar as palhinhas, de dedos em riste como se tivesse alguma legitimidade para apontar os males do mundo. Cala-te pá. O que é que tu sabes da vida? Eu, por outro lado, não nasci ontem (não sou como uns e outros, sé-que-mentendes).
Sento-me aqui no sossego a olhar para o leque de cartões-oferta à minha frente, uma mão de poker multicolor, e chego à conclusão de que ainda não decidi se é triste ou divertido que as pessoas nunca saibam o que me oferecer. E acho que por isso é que me dói a garganta, porque se me prendeu aqui alguma coisa que não uma espinha do bacalhau com couves, alguma coisa que não há meio de saltar cá para fora. Alguma coisa que talvez explique porque é que não gozo a quadra, o quadro. Hoje é a mim que me dói a garganta - o menino ófáxavor que explique que eu é mais bolos. Mas eu acho, aqui na minha infinita ignorância destas coisas todas assim mais para o obscuro, que sou aquelas coisas todas que não digo, não faço, não falo. E se calhar, vais a ver ò menino, que é por isso que me dói a garganta.

24 de dezembro de 2009

É natal e coiso e tal.

Confesso que esta coisa do natal pouco me diz. Seja pelo hábito de o passar sem grande companhia, seja por pequena rebelião ou pura falta de consideração por entusiasmos pré-fabricados. Pouco me interessa a consoada, os presentes, a árvore com luzinhas. Fico-me pelo que o natal antecede: o final de um ano. Tempo de balanços, de reflexões. Tempo de avaliar, de olhar para trás e ter a medida exacta do tempo que passou. E agrada-me a perspectiva de ter um ano por estrear. Uma coisa nova, cama feita de lavado. Licença para fazer igual, fazer diferente. Ou só fazer. E sei que o ano que aí vem vai ser bom. Sei-o. Sei-o como sei dobrar camisolas, nasceu comigo. Sei-o como sei pôr um pé à frente do outro. Sei-o. E isso deixa-me tremendamente contente e algo ansiosa por tudo o que se avizinha: um ano inteiro por estrear.