2 de janeiro de 2010
Da geologia. Ou do ano novo.
O meu primeiro dia do ano é sempre um espécie de ausência. Congelo o tempo, não aceito convites, não faço planos, deixo só o dia escorrer por entre as arestas e escarpas. Vou sempre ver o mar - não que faça disso uma espécie de tradição, mas acaba por acontecer, por mais voltas que dê - volto sempre ao ponto de encontro e constato que não fiz mais do que partir. Acabo por concluir que não se volta, nunca se volta. Mas parte-se sempre, mesmo que não se saiba ao que se vai, nem como, nem porquê. Não há nunca regressos, o caminho muda de ano para ano: a erosão, os caminhos dos outros, a vegetação que progride, os sentidos proibidos. Tudo acontece entre parêntesis, de Janeiro a Janeiro, para nos lembrar que não podemos voltar ao lugar onde estivémos no ano anterior. E sentada a olhar o mar, a maldizer a minha incapacidade de me agasalhar convenientemente, fico com uma espécie de sorriso parvo, olhar perdido-encontrado. Deito um olhar vago às camadas geológicas dos meus verbos - querer, perguntar, ir, estar, fazer, morder, ler, escolher, viajar, descobrir, amar, escrever, arrumar, encontrar, morrer. Penso sempre na influência anímica que as palavras - minhas e dos outros - exercem sobre mim. Penso nos gestos mortos e enterrados, nas escolhas fossilizadas, sem retorno ou possibilidade de encontro. Sorrio à sorte que tenho em descobrir, volta não volta, um geodo - sempre me aconteceu, tropeçar inadvertidamente em coisas muito muito boas. Olho para os movimentos tectónicos do ano, de como pequenas coisas se fizeram coisas gigantes ou de como grandes movimentos trouxeram pequenos detalhes. Penso nos terramotos - reais e interiores - e chego novamente à conclusão de que são sempre bons, dei-me sempre muito bem com abalos profundos, saltos mortais, terra a tremer. E tal como a geologia serve para determinar a idade da terra, a minha geologia dá-me a medida exacta do tempo que passou. Deixa-me ver as camadas de registos mais ou menos sólidos do caminho que já percorri. No próximo Janeiro há mais. Nesta entrada a pés juntos no ano novo guardo a profunda convicção de que se avizinham erupções plinianas, de que me farei Vesúvio e Krakatoa. Isso eu sei.
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Hot Lava :-)
ResponderEliminarhttp://www.youtube.com/watch?v=sG70rsLUjfQ
Oooo Hot Lava
ResponderEliminarOooo Hot Lava
You're a funny bunny S' :-)