5 de julho de 2011

Falo contigo.

Falo contigo sem falar porque há um ponto em que só consigo escrever. É uma coisa minha, cá de dentro. Sempre fui assim: quando consigo falar é porque as coisas nem estão muito más, quando pioram só consigo que as coisas saiam escritas, letra a letra, quase a ferros. É terapêutica, esta coisa de escrever. É um saco onde se guardam as letras e se deixam escorrer pelas paredes feitas do tecido invisível dos dias.  Falo contigo. Mas não te posso dizer a falar que não durmo duas horas seguidas sem acordar de sobressalto. Não faz sentido que te diga isso quando não to sei dizer a falar. Não te posso dizer a falar que me angustia esta coisa de estar intrinsecamente sozinha e que por mais que esteja acompanhada me sinto só. Não to sei dizer a falar. Não te posso dizer a falar que é a primeira vez na vida que duvido da minha tenacidade e do meu valor. Não to sei dizer a falar. Não te posso dizer a falar que me falha o pé em coisas que sempre soube serem verdade. Não to sei dizer a falar. Não te posso dizer a falar que me cansa a ruína dos dias. Não to sei dizer a falar. Não te posso dizer a falar que me dói a dor dos velhos, cá no fundo do coração, como quem desistiu de esperar por amanhã. Não to sei dizer a falar. Não te posso dizer a falar que apesar de fazer por me divertir no caminho me pesam as pernas ao andar. Não to sei dizer a falar. Não te posso dizer a falar que estou a aprender a viver meia vida com meio coração. 
Por isso é que te escrevo, quase rezo. Porque não to sei dizer a falar.

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