(é urgente salvar o amor)
12 de agosto de 2010
Da ideologia que é o amor.
O amor sobrevive graciosamente, todo ele força e ferro e fogo, todo ele verdade e intensidade, todo ele pureza e devoção. Esta ideia de amor, assim explicada em dois minutos de palavras, como quem olha uma reprodução gasta da fotografia de sempre, Doisneau de postal em cima do fogão. À medida que o tempo passa guarda-se a ideia de amor no coração, num pequeno bolso apertado, empurra-se para dentro até doer, amassa-se com fervor devoto o nome escrito, pequenino, numa dobra do braço - porque sim, o coração tem braços senão não podia abraçar. Olha esperançada o postal - podia pensar-se desiludida com tombos e truques, com escadas e vãos. Olha distraída o postal - podia pensar-se que se fundiu com a tinta da parede, vidros duplos, arquitectura dos dias. Desvia o olhar do postal - podia pensar-se um amor incompreendido, um amor impossível, um amor desesperado. Logo depois ela decide que importante mesmo é aquela figura no postal, aquela figura onde não há ainda dor, onde ainda não há mácula, só amor. E é tão simples, o postal, um amor acidental de tropeçar na rua sem cair, de virar esquinas, de caminhar de peito aberto. Um amor de papel, de guardar no coração, memória feliz, cristalizada em sais de prata. Porque talvez o amor seja isso mesmo: de papel. De ideologia. De verdades profundas escritas a preto que depois ganham corpo e perdem alma. Talvez o amor seja de papel, como uma filosofia política que parece ideal e quando se pratica não funciona. E essa ideia de amor não sobrevive à consumação: perde o valor que tem quando se realiza, é teoria, potencial. E - para mal dos nossos pecados - essa ideia de amor fica marcada, num lugar profundo algures entre a garganta e o estômago, num postal gasto em cima do fogão.
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O amor é um seca.
ResponderEliminarSalvem a paixão! ;)
O amor é lindo. Mas sim, salvem a paixão que nós apreciamos eebbeejibbies :-)
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